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Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

A feira (de S. Mateus)

É frequente ouvir dizer: “a tradição já não é o que era.” Concordo (em parte). Há de facto alterações sociais, económicas, culturais que acompanham a evolução dos tempos. Outras nem por isso. Os mais conservadores (julgo) sentem-se mais ligados às origens, ao passado. Vivem o presente e projetam o futuro em função das suas vivências passadas. Vivem em função do princípio da imutabilidade das coisas. Não sou assim. Mas confesso que sinto algum apego a tudo o que me fez feliz, num ou outro momento passado. Talvez por isso dê comigo a recriar episódios da infância (e juventude) que me marcaram para a vida.

Como o dia da feira (de S. Mateus). Naquele tempo, as ruas 25 de abril, da República e Cândido dos Reis, bem com o largo da escola primária e arredores, acolhiam as inúmeras tendas (e bancas) dos vendedores ambulantes.

 

 

Logo à entrada, na rua 25 de abril, as bancas com doçarias impunham-se aos olhos do público. Lembro-me do pinhonate (uma espécie de “pinhoada” com amêndoa) que o Tio António transportava num grande baú e vendia rapidamente por ser muito bom (mas caro também). Também o torrão de Alicante fazia as delícias de pequenos e graúdos. Além dos bolos tradicionais (e não só). Assim se fazia a subida da rua até ao largo da escola primária onde a pista dos carrinhos de choque exibia as novidades da música popular (e não só) tornando mais atrativas as manobras ao volante dos “bólides de ferro”. Eram autênticas corridas labirínticas onde cada “piloto” tentava escapar aos choques do “adversário” demonstrando a sua perícia na arte de conduzir. Tardes (inteiras) passadas a gastar as economias do mealheiro (feito a propósito). A diversão dos jovens, na feira, passava por ali. À noite, as idas à feira eram quase sempre feitas em família e para assistir ao espetáculo do velho circo Atlas. À entrada comprava-se o algodão doce para adoçar a boca enquanto se fitava com atenção a menina do trapézio, o malabarista, o domador de leões e os palhaços. Sempre os palhaços para alegrar a criançada e fazer rir os adultos, pois só estes percebiam o verdadeiro significado daqueles diálogos.

 

 

A feira era um acontecimento marcante na vida dos mertolenses. Logo pela manhã começam a chegar à vila pessoas de todo o concelho. A manhã era, normalmente, dedicada às trocas comerciais e venda de gado na “corredora”, assim se chamava o local, junto à antiga cerca do Carmo, onde se reuniam os negociantes de gado e os ciganos que naqueles dias por ali acampavam com as suas bestas. Por hábito os habitantes das freguesias mais afastadas vinham de manhã à feira. Depois de almoço regressavam a casa (ou até antes). A tarde, mais calma, concentrava, sobretudo, pessoas da freguesia sede de concelho.

Havia de tudo nas feiras. As novidades chegavam por esta via às zonas do interior do país. Era uma lufada de ar fresco na vida das populações. Havia quem se preocupasse com o traje que levaria para a feira, com muita antecedência. A cabeleireira (única) levava uma semana de trabalho intenso e às vezes (na véspera) trabalhava até altas horas da noite. Lembro-me de ver a minha mãe fazer permanente “a quente” (como lhe chamavam). Recordo-me do cheiro caraterístico dos “rolos quentes” e do papel a enrolar o cabelo. Gostava de observar aqueles rituais. Apreciar os penteados elaborados e sentir o cheiro da laca Sunsilk (muito usada na época).

Nesse dia acordava cedo. Ansiosa por chegar à feira. Corria para as bancas dos brinquedos e apreciava cada um com grande entusiasmo. Não apreciava, particularmente, bonecas. Nunca percebi porquê. Só mais tarde (quase com 9 anos) achei piada a uma boneca de cabelos ruivos e vestido verde-esmeralda que a minha mãe me comprou na feira, à qual não pude ir por estar doente. Talvez a pieguice da doença me deixasse vulnerável e sensível, ao ponto de me apaixonar fortemente por aquela criatura de plástico. Um brinquedo simples mas que marcou (para sempre) a minha infância.

 

 

Os tempos passaram, mudaram, e com eles as feiras. Os momentos marcantes da infância, esses permanecem guardados na memória. E ainda bem.

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