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Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

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A (mágica) Quinta da Regaleira

Nunca fui grande entusiasta de ficção. Nem nos livros nem nos filmes. A fantasia nunca foi uma área que me motivasse particularmente. Talvez por isso os filmes do Harry Potter (tão apreciados), por miúdos e graúdos, nunca foram a minha perdição. A única vez que me entusiasmei a sério com a dita “saga” foi numa viagem à Escócia quando vislumbrei, numa paisagem lindíssima, o famoso viaduto de Glenfinnan que aparece no filme “A Câmara dos Segredos”.

No entanto, quando entrei na Quinta da Regaleira, um dos mais emblemáticos monumentos arquitetónicos da serra de Sintra (ainda dentro do chamado centro histórico) senti-me por momentos a personagem principal de uma cena de magia. Noutros momentos, o cenário mudava e eu fugia de uma qualquer figura fantasmagórica.

 

Vista parcial do "Palácio da Regaleira"

 

A Quinta da Regaleira teve vários proprietários mas foi Carvalho Monteiro (um notável capitalista, Licenciado em Direito, colecionador e filantropo) que a transformou naquilo que é hoje, com a colaboração do famoso arquiteto italiano Luigi Manini. Foram catorze anos de alterações e construções diversas que a tornaram num ícone arquitetónico onde impera (entre outros) o estilo neomanuelino. Decorado de forma exuberante, às vezes excêntrica, o espaço revela na perfeição o gosto pela Mitologia e o espírito eclético da época.

 

"Portal dos Guardiães"

 

Munida de um mapa para uma visita autoguiada, vou caminhando (sem pressas), apreciando cada detalhe da quinta. Das altas sequoias aos fetos (muitos), das torres às grutas, dos lagos aos poços, tudo ali tem uma dimensão “poética e profética”.

À entrada um grande portão dá acesso ao jardim, frondoso e muito diversificado em espécies (cedros, carvalhos, tílias, castanheiros, sequoias…). Um cosmos muito especial. Há recantos, muitos, onde a magia e o mistério se cruzam. São mundos distintos o que vejo. Um mundo real, com luz, cor, vida. O mundo da superfície materializado no jardim. A presença da deusa Ceres num painel de azulejos (na fachada da estufa), da autoria de L. Manini, simboliza (para mim) parte desse mundo. Nas galerias subterrâneas, o mundo do fantástico. Um mundo obscuro rodeado de mistérios. Um “mundo de tormentas” (como resolvi chamar-lhe). É esse contraste entre o real e o fantástico, a luz e a escuridão que torna o local enigmático e esotérico. Excentricidades do proprietário. Julgo.

 

"Gruta do Oriente"

 

 Sigo até ao Lago da Cascata e entro na Gruta do Oriente (uma das entradas para as galerias/percursos subterrâneos). Do teto, gotas de água vão caindo sobre a minha cabeça e eu sinto-me cada vez mais envolvida naquele mundo. O escuro amedronta-me (confesso). Preciso de luz (já). Acelero o passo e ao primeiro sinal de luz corro para lá. Eis-me no centro do Poço Iniciático (uma torre invertida que se afunda cerca de 27m no interior da terra e com acesso através de uma grande escadaria em espiral). O local é enigmático. Afinal representa um “espaço de sagração, de conotações herméticas e de alquimias” (conforme referência escrita no guia fornecido à entrada da visita). Início a subida (que devia ser descida). Apeteceu-me contrariar o normal. Afinal estava a viver a minha própria aventura por isso as escolhas seriam (e foram) em função do meu argumento fictício. Chego ao topo (no caso a base da torre) e respiro fundo. Lenta e profundamente. Ar puro. Luz. Muita luz. Para trás ficara a visão de Neptuno e de outros deuses daquele mundo obscuro…

 

"Poço Iniciático" (vista a partir da base da torre)

 

A magia das plantas e do azul do céu voltara e eu pude continuar a disfrutar do passeio pela surpreendente quinta.

Enquanto beberico um café numa esplanada da cafetaria em frente do Palácio da Regaleira, a curiosidade pela visita aumenta. Afinal ali poderia continuar a desvendar hábitos (e mistérios quiça) do célebre habitante da Regaleira...

 

 "Torre da Regaleira"

 

Vista parcial de Sintra a partir da "Torre da Regaleira"

 

 

Nota: a descrição do palácio (e seu interior) daria outra história, outro post.

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