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Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

Na "rota da cortiça"

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Subo montes, desço aos vales. Ao longe, na serra, o labirinto de caminhos denuncia a preocupação com os incêndios; como aquele que devastou a Serra do Caldeirão, no verão de 2012.

Hoje a serra está mais pobre. O montado de sobro, em regeneração, dificilmente voltará a ser o que era. Como disse um residente da aldeia de Parises: “O fogo matou a serra!” Nesta aldeia antiga (próxima de Alportel), os poucos residentes, idosos, já nada esperam da terra que os viu nascer. O incêndio retirou-lhes o principal “sustento”: a cortiça.

Segundo dizem, outrora, viveram ali cerca de sessenta famílias - com seis a dez filhos cada. Hoje, já ninguém acredita em melhores dias; o desânimo e a solidão tomaram conta do tempo.

Prossigo viagem até ao miradouro de Cabeça do Velho. A música – um corridinho algarvio – não deixa margem para dúvidas: um bailarico de aldeia, onde alguns pares (de idosos e pensionistas) dançam, animadamente, ao ritmo rápido que a música impõe. Alheios ao turista que passa, e ao tempo, contornam, deste modo, a monotonia dos dias.

Junto ao Serro da Ursa, um feixe de lenha, na berma da estrada, e um idoso, sentado na paragem do autocarro, prendem-me a atenção. Ar descontraído, olhar no vazio do horizonte. Aproximo-me e enceto uma conversa de circunstância. Num ápice conquisto a confiança do Sr. Manuel Martins (oitenta e seis anos). Digo-lhe de onde sou e o que faço ali. “A primeira vez que tomei praça foi em Mértola, aos quinze anos”, diz-me, num tom de voz calmo e sereno, sem pressas nem ambições, como se o tempo não existisse e a vida fluísse em câmara lenta. Uma conversa cativante, sobre tempos passados.

Mais umas curvas, e contracurvas, e eis duas das aldeias mais antigas da serra: Lajes e Cabanas. No alto do monte as “casinhas”, minúsculas e feitas de pedra, algumas caiadas de banco, permanecem indiferentes a quem passa. Sem habitantes à vista, calcorreio a única rua, estreita e sinuosa, procurando em cada porta um resquício da história destas aldeias. Apenas o fumo a sair de uma chaminé e duas cabras a pastar na proximidade, indiciam a presença humana no local.

Olho em redor: nas encostas, os sobreiros queimados revelam o passado recente: uma história sem final feliz.

 

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