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Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

Escrita ao Luar

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Rio acima...

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 Lá longe o som do motor - quase silencioso -, anuncia o início da faina. Lentamente a pequena embarcação afasta-se, rio acima, nas águas calmas da tarde. Enquanto isso, eu, sentada na escarpa da nora, aceno ao casal de pescadores.

 Pouco tempo depois, o motor desligar-se-á; a D. Antónia começará a remar, enquanto o marido lançará o tresmalho[1]. Se as condições meteorológicas ajudarem talvez a pescaria resulte e valha a pena o sacrifício de mais uma noite ao relento.

 Mas por vezes o temporal não facilita e a noite termina cedo - debaixo do velho oleado ou na casa mais próxima. Lembro-me (na perfeição) de ver chegar o Sr. Álvaro e a esposa (a falecida D. Antónia) à casa da minha avó (mais tarde a casa dos meus pais) quando o tempo não ajudava e o regresso se antecipava; o que acontecia com alguma frequência no inverno.

 A sua chegada quebrava as rotinas da casa e animava as hostes. Sempre bem-disposto, o Sr. Álvaro lá chegava com um muge (ou mais) dentro de um saco – às vezes na própria mão -, para oferecer aos da casa. Entre uma conversa e outra - junto à lareira -, a sua presença era sempre uma alegria.

 Como a alegria que os pescadores incutiam ao rio com as suas lanchas coloridas. Cenas de uma vida difícil que a resiliência e o empreendedorismo colmatavam.

 A arte da pesca, que, há séculos constitui um meio de sobrevivência de muitas populações ribeirinhas, tem vindo progressivamente a decrescer. Alguns pescadores, de entre os mais velhos, já partiram… outros há que, alegando questões de vária ordem, abandonaram a atividade; os que restam deparam-se com muitas dificuldades e na maioria dos casos a pesca é, agora, uma atividade paralela.

 Apesar de tudo, de vez em quando, nas águas calmas da tarde, avisto uma lancha. E penso: ainda há pescadores no rio Guadiana. Poucos, mas há. A paixão pelo rio continua e nós – mertolenses -, agradecemos-lhes.

 

 

[1] Uma espécie de rede, usada durante todo o ano, cujas caraterísticas variam em função da espécie de peixe a capturar. Há tresmalhos para muge (tainha), saboga, barbos, bogas, achigãs, etc.