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Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

Líderes vs Chefes

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 Cresci aprendendo que numa sociedade organizada há divisão pelo trabalho, onde alguns, pela sua capacidade do exercício da autoridade, poder de decisão e competências, comandam/dirigem outros, que neles depositaram a sua confiança ao nomeá-los (ou elege-los) como tal. Há quem lhes chame chefes; eu prefiro chamar-lhes líderes - aqueles que dirigem.

 Enquanto ser chefe pressupõe o exercício de um cargo, o conceito de líder reúne um conjunto de qualidades/aptidões/capacidades que o distinguem como um exemplo a seguir. Ser líder não significa, necessariamente, ser chefe; também o facto de alguém ser chefe, um cargo, não significa ser possuidor das características inerentes à condição de líder.

 Pelo contrário, os verdadeiros líderes não necessitam de exercer cargos de chefia para se fazerem notar; são por natureza pessoas especiais por se evidenciarem de modo espontâneo - que primam pela qualidade na sua forma de agir e em relação aos seus propósitos. É destes Líderes que o Mundo precisa! Não daqueles que, à custa da bajulação e da sede de poder, vão teimando em alimentar-se da ignorância e ceticismo alheios, dominando tudo e todos. Desses, o povo está cansado, farto.

 Talvez por isso os grandes líderes não são aqueles que são impostos aos olhos do povo, mas antes aqueles, que não parecendo líderes, são um exemplo e exercem, com naturalidade, sobre os “súbditos” uma influência extrema. Com dinamismo, poder e liderança vão trilhando caminhos - nunca antes desvendados - e cunhando projetos ímpares. A sua palavra chega-nos como uma força da natureza: robusta e pragmática; sem mas nem reticências; sem vaidades; uma palavra única e motivadora, autêntica e desprendida.

 O que queremos? Queremos líderes! Pessoas despojadas do “poder doentio”; pessoas resilientes, capazes de servir o povo na verdadeira aceção da palavra.

Inveja - um "mal nacional"!?

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 A inveja - ou o “desejo de possuir o que outro tem” – é, sabemo-lo todos, um “mal nacional”. Desde sempre conheci pessoas invejosas. Aliás, convive-se com elas todos os dias. Queiramos ou não, desejemos ou não. Já dizia um grande amigo: “Já reparou que o grande poema épico – Os Lusíadas – termina com a palavra inveja?”. Confesso que, até à oportuna observação, nunca tinha dado conta de tal facto.

 Confrontada com comportamentos alheios que evidenciam a dita desvirtude, apeteceu-me, hoje, aqui e agora, dissertar um pouco sobre o tema. Não que me agrade particularmente, mas porque o sentido de oportunidade me leva a fazê-lo.

 Em tempos li um artigo (de um conceituado jornalista) em que o mesmo se referia aos “males” deste país - motivos que nos impedem de avançar (e muitas vezes de evoluir) - e lá estava a maldita da inveja a comandar as hostes. Começando no mundo da política, onde o sectarismo doentio conduz à traição política constante e ao desrespeito pelo próximo, e acabando nas relações interpares no mundo laboral e/ou outro meio onde existam relações humanas, a honestidade e o respeito pelos outros - e por aquilo que os outros têm, é apenas uma miragem.

 Desde que me conheço que costumo ser pragmática nas observações – às vezes inconveniente, diria –, mas assumo as consequências das palavras e dos atos. É certo que há “verdades inconvenientes”. E esta, provavelmente, será mais uma. Mas assumo, inteiramente, o retrato do invejoso aqui plasmado.

 E digo: o invejoso é, sem dar conta, uma pessoa vazia de sentimentos; um sobrevivente do “ódio” por aqueles que são diferentes, que definha a cada dia da sua existência.

 

A "segunda adolescência"

 

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  Faz tempo, durante uma conversa com uma amiga de longa data, esta temática veio a propósito de pessoas adultas imaturas. Dizia-me essa amiga: “Há pessoas que permanecem, eternamente, na segunda adolescência.”Apesar de compreender no imediato a conotação subjacente à afirmação proferida, fiz questão de debater mais um pouco o tema em causa. Uma breve troca de ideias e eis a conclusão de tão interessante abordagem: depois dos “quarenta” (há quem refira mesmo, aos 42 anos) homens e mulheres, não aceitando o processo de envelhecimento natural, desenvolvem determinados comportamentos - muitas vezes desajustados da idade - porque pretendem manter-se “eternamente” jovens. Nunca satisfeitas, essas pessoas correm o risco de se desviar do “caminho do autoconhecimento”, uma ferramenta fundamental para os “ajudar a ultrapassar as sucessivas crises pessoais que irão surgir ao longo da vida”de uma forma "mais madura".

 Se, às citadas crises pessoais, acrescentarmos, nomeadamente, um processo de divórcio, as consequências serão maiores e mais difíceis de gerir. No limite essas pessoas vivem acontecimentos traumatizantes que vão influenciar o seu comportamento futuro, em termos de sexualidade (e não só) - entendendo-se o conceito de sexualidade nas suas várias dimensões: biológica, social, cultural, ética, moral, religiosa, etc.

 Todos os acontecimentos pessoais provocam instabilidade emocional - frequentemente geradora de conflitos interiores - que conduz a uma de duas vias distintas (e possíveis): a via do equilíbrio - com tranquilidade e paz interior - e a via da agitação emocional permanente – a denominada “segunda adolescência”. Antes de se atingir o estádio de equilíbrio, quase todos passamos pela fase do caos emocional.

 Os problemas surgem quando não conseguimos ultrapassar essa fase de desequilíbrio. Nesse caso, dizia-me a citada amiga - com algum conhecimento na matéria - fica-se eternamente preso a um estádio de agitação perpétua, a já referida “segunda adolescência”, à qual se associa o popular e pejorativo conceito: “velho(a) jarreta[1]”.

Será mesmo assim?                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    

 

[1] Termo (muito usual entre nós) que está, frequentemente, associado a pessoas com comportamento leviano e/ou inconsequente e, de alguma forma, descontextualizado da idade biológica.

 

Crianças “atrevidas“ ou Crianças insolentes?

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 Há dias uma intervenção do meu neto de três anos e meio deixou-me completamente boquiaberta. Enquanto o petiz mantinha um diálogo com a bisavó paterna interrompi a conversa, para dar o meu parecer sobre o assunto em debate. Resultado: o pequeno, de rompante, diz: «Tu chamas-te avó Teresa?» Não – respondi. «Pois não, tu és a avó Gi.» Retorquiu o pequeno homem. «Então… eu estou a falar com a avó Teresa, percebeste?» Inquiriu-me veementemente o pequeno. Fiquei sem palavras. A criança, para além de se revelar expedita, revelou capacidade de argumentação.

Desde aquela ocorrência que me questiono: estarão as crianças a ficar mais “atrevidas”?

 O episódio supra citado - apesar de singelo e inconsequente -, exemplifica o que venho constatando (como docente) há já algum tempo: as crianças estão cada vez mais extrovertidas e o “à vontade” reina no seu mundo. Estar à vontade com regras é bom e deseja-se. Afinal, ser autónomo e possuir espírito crítico são finalidades da educação. O pior acontece quando o atrevimento resvala para a insolência. Nesse caso, entramos no domínio da indisciplina.

 No meu tempo, sobretudo na escola primária e no ciclo preparatório (atuais 1º e 2º ciclos do Ensino Básico) a timidez e o recato eram as caraterísticas dominantes. Excetuando um ou outro caso de alunos mais irreverentes, os professores mantinham a ordem com relativa facilidade; muitas vezes “arrancar uma palavra” dos alunos, para estimular a participação, era uma verdadeira odisseia. Nos tempos que correm mante-los calados e atentos é obra de mestre. Hoje ninguém duvida que a indisciplina é um problema estrutural que afeta os nossos jovens.

 O que está na origem destas mudanças comportamentais? O que os leva a pensar que já são “grandes” e que a conversa dos adultos é “conversa mole”? Porque estão cada vez mais desobedientes e desinteressados das atividades escolares?

 Talvez os pedopsiquiatras e os pedo psicólogos tenham a resposta para estas e outras questões. Não duvido disso. Entretanto, professores e encarregados de educação - unidos -, terão de concertar esforços para colmatar o problema de indisciplina.

Nota: esta opinião é pessoal e vale o que vale. O texto não pretende fazer generalizações: apenas reporta a situações que, julgo, se repetem, hoje em dia, com muita frequência.

Questionar a Vida

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 Qualquer um de nós, nalgum momento da sua (breve) existência, já questionou o “destino”. O que quero? O que não quero? Para onde vou? As questões surgem, quase sempre, no contexto dos chamados maus momentos. Nessas alturas a introspeção impõe-se, pois a resposta está (quase sempre) em nós. O que queremos da Vida deve ser uma opção pensada unilateralmente, embora tenhamos tendência a culpabilizar os outros por tudo o que nos acontece. Por norma imputamos aos outros as causas dos nossos erros, das nossas “desgraças”. Uma atitude errada e pouco consentânea com o nosso desenvolvimento pessoal.

 É na idade adulta que estas perguntas (sem resposta imediata) surgem com maior frequência. As vivências são maiores - e a maturidade, também – despoletando uma análise introspetiva mais rigorosa, porque o filtro da razão está mais apurado; as emoções são, também, mais facilmente controladas. E quando necessário: o racional supera o emocional. Mas, ainda assim, as questões surgem e as dúvidas instalam-se - frequentemente.

 Seja qual for a razão dos acontecimentos - que marcam a nossa existência, somos nós que decidimos o rumo da nossa história de vida.

 Somos fruto das nossas circunstâncias. E como dizia Lamarck: as “circunstâncias” mudam e os seres sentem “ a necessidade de se adaptar”, face às alterações. Se, no turbilhão das adversidades, conseguirmos adaptar-nos, daremos mais um passo na nossa evolução pessoal. Para isso é preciso: parar, analisar e optar. Tudo isto pressupõe vontade e desejo de Crescer. Somos nós que decidimos se passamos pela Vida ou, pelo contrário, vivemos a Vida.

 Costumo dizer: há pessoas tranquilas da Vida e pessoas desassossegadas da Vida. As primeiras, nalgum momento da sua existência, pararam para pensar e optaram pelo percurso certo: um caminho onde reina a vontade de vencer, a harmonia de espírito e o respeito por si mesmos (e pelos outros); as segundas são pessoas cujo universo onde se movem está repleto de agitação espiritual. A sua existência - caracterizada pela intranquilidade - não lhes permite parar para Pensar. Vivem num mundo de desejos materiais (e imateriais) e a insatisfação geral é, normalmente, o seu lema de Vida.

Vale a pena pensar nisto? Julgo que sim. Questionarmos o nosso Eu é, também, uma forma de Crescer.

Utopias (dirão alguns). Pontos… de vista (digo eu).

Ser sogra (hoje)

 

 

O laço afetivo subjacente à condição de sogra não será hoje muito diferente de há vinte, trinta ou mais anos. A sociedade mudou e na sequência o conceito de Família e respetivas relações a ela associadas. Há quem se deixe levar pela influência de tais mudanças. Outros, porém, resistem e mantém viva a tradição de dezenas de anos: chamar mãe à sogra (por exemplo). Nunca consegui fazê-lo. Não sei explicar porquê. Ou sei: mãe há só uma.

Mas porquê este assunto? Porque, aparentemente, não compreendo  o porquê de tantas “anedotas” e outros tantos aforismos sobre a “condição de sogra”. Expressões como “a bruxa”, “língua da sogra” e outros conceitos mais ou menos pejorativos nunca fizeram parte do meu léxico pessoal (e familiar). Sorte, dirão aqueles cuja relação com a sogra é uma relação conflituosa. Eu não diria isso. As relações são (ou não) conflituosas independentemente do grau de parentesco em causa. Pode haver atritos entre filhos e pais. Não é a relação de parentesco que dita o tipo de relacionamento mas sim a personalidade das pessoas em causa. A questão reside na aceitação das diferenças individuais e do modo de estar e ser de cada indivíduo, as quais deverão ser respeitadas. Só assim se mantém uma convivência saudável entre todos.

Outra situação que, frequentemente, me prende a atenção: a relação sogra-genro. Esta é, por norma, uma relação mais amistosa do que a relação sogra-nora. À partida nada surpreendente. É do senso comum que entre mulheres são mais frequentes os atritos e os constrangimentos. Na maior parte das vezes o motivo passa pelos ciúmes dos afetos demonstrados. As mulheres têm (normalmente) mais tendência a exagerar na dose de ciúmes. Por isso, quando a sogra é carinhosa e afetuosa com o filho muitas noras reagem mal. Não aceitam nem compreendem que o amor de mãe é incondicional pelo que não pode ser alvo de ciúmes ou competições.

Há mulheres que partem para o casamento com o preconceito da “sogra chata e metediça”. Uma ideia errada e que em nada beneficia as relações entre as pessoas. Pelo contrário, condiciona-as de forma negativa gerando conflitos desnecessários e injustificados.

Também é verdade que algumas sogras, julgando proceder corretamente, interferem na relação conjugal dos filhos. Estão, assim, a empolar o preconceito e a originar constrangimentos desnecessários - embora não intencionalmente. Neste tipo de situação o bom senso deve imperar e o diálogo será a solução mais indicada.

Contrariamente, a relação sogra-genro é por hábito diferente: mais amistosa, menos conflituosa. Eu própria o posso confirmar. A minha avó materna manteve durante cerca de cinquenta anos, uma relação de respeito e de muita amizade e estima para com o meu pai. Não posso, nem devo, generalizar situações mas quero crer que esta relação é, comumente, deste género.

Haverá outras situações dignas de registo mas genericamente estas são (julgo) as mais frequentes.

Finalmente, considero que os mimos devem continuar a existir por parte da mãe (a sogra) mesmo após o casamento, mas sem cair no exagero e sem interferir na privacidade do casal.

 

Assina:

Uma nora, já sogra.

 

 

 

Ser Mulher (hoje)

Longe de ser um post feminista, este, visa abordar um tema universal. Uma condição igual a muitas outras, com a particularidade de abordar temáticas mais vocacionadas para o género feminino. Porque sou mulher, apeteceu-me abrir a maleta das “coisas de mulheres” e partilhar opiniões, gostos, angústias, paixões. Um mundo de desejos muitas vezes oculto e reprimido.

Se na idade média, para não recuar mais além, a grande maioria das mulheres via o seu papel reduzido à reprodução e lida doméstica, a partir de meados do século XX, com as alterações sociais, a maioria das mulheres adquire qualificação, entra no mercado de trabalho e passa a disputar lugares de chefia com os homens. Uma luta que dura até hoje. A emancipação da mulher alterou o seu estatuto social. Torna-a mais ativa e consciente dos seus direitos, não permitindo a discriminação. Exige regalias entre os pares, demonstra capacidades e sentido de responsabilidade. Assume a liderança e, com ela, o respeito e a confiança de todos. A mulher de hoje vai à luta e não dá tréguas. Desdobra-se em múltiplas funções e assume cada uma delas com espírito de missão.

Se outrora era difícil “ser mulher” nos dias que correm mais difícil se torna. Há uma visão de perfeição extrema. A “fasquia” está muito alta (diria). Desde logo o aspeto físico. O culto do corpo generalizou-se e com ele a alteração do padrão de beleza física. É certo que os meios à disposição são outros e muito diversificados. A evolução das técnicas e métodos para travar o envelhecimento alterou grandemente o modelo de beleza padronizado. A própria globalização também contribuiu para as modificações introduzidas.

Há poucos dias, numa breve conversa com uma senhora brasileira, ainda relativamente jovem, dei por mim a falar de estética e beleza no feminino. Um mundo que sempre me fascinou desde miúda. Um mundo tão importante quanto outros que perfazem a nossa existência. Dizia a dita senhora: “No Brasil, você pode até passar sem comer, viver na favela, mas para cuidar do corpo, da pele e do cabelo você sempre arranja dinheiro… (…)”. Da realidade brasileira que conheço apreendi essa lição. No Brasil, há uma cultura do corpo e da mente muito diferente da nossa. Somos “cinzentos” dizem os brasileiros. A mulher cuida-se muito e preocupa-se com o aspeto físico. Felizmente por cá essa preocupação já começa a ser notória. Os ginásios proliferaram nos últimos anos, as dietas que apregoam milagres são mais que muitas, os tratamentos de beleza são mais frequentes, ir ao cabeleireiro e à manicura/pedicura é uma rotina instalada, as compras na internet eliminaram fronteiras e distâncias. O mundo da moda globalizou-se e entrou nas nossas casas. Também é verdade que beleza ganhou novos contornos. Há mais rigor e exigência com o aspeto físico do indivíduo.

Apesar das alterações de que há pouco falava, em Portugal ainda existe o costume de chamar fúteis às mulheres que se preocupam com o lado estético. Uma atitude social que considero redutora. Está provado (cientificamente) que um corpo harmonioso e saudável torna mais confiante a pessoa. E se estamos bem connosco mesmos, estamos bem com os outros. Não duvido que a nossa autoestima contribui para o nosso sucesso pessoal global.

Em termos pessoais destacaria outra vertente, a afetiva. A mulher valoriza (muito) os afetos. Sem dúvida que o tipo de relacionamento condiciona a forma como encaramos a vida. A submissão ao outro há muito que deixou de ser uma constante. Nos relacionamentos de hoje o espírito de partilha é a base da durabilidade e qualidade das relações afetivas. Porque a mulher trabalha a par do homem, exige, deste, igual empenho e envolvimento nas tarefas familiares e domésticas. Os jovens (homens) de hoje são formatados (socialmente) para essa forma de encarar a vida a dois. Estou plenamente convencida de que muitos divórcios da geração atualmente com 40/50 anos ter-se-iam evitado caso a mentalidade (e atitude) socio cultural fosse outra. A cultura da máxima: “a mulher é de casa e o homem da rua”, do tempo das minhas avós e bisavós foi completamente ultrapassada. E ainda bem. A liberdade de expressão global da mulher na segunda metade do séc. XX levou ao assumir de um estatuto completamente oposto. A mulher lutou, reivindicou e alcançou um estatuto pessoal e profissional digno de registo. A igualdade de oportunidades é a tónica na qual deve assentar a sociedade do futuro.

Mas “ser mulher” é fácil? Não. Digo-o com toda a convicção. Ser boa profissional, gerir a economia doméstica e a estrutura familiar nuclear, manter-se “jovem e bela” e evitar que a rotina se instale no casamento (ou outra qualquer relação afetiva) é difícil e dá trabalho. Mas, como em tudo na vida, sem esforço e sem empenho não serão alcançados os objetivos mínimos. A vida sem lutas não faz qualquer sentido. Ultrapassar obstáculos é uma constante da vida do comum dos mortais. Aguça o engenho e arte de vencer. Dá forças para prosseguir mesmo nos momentos mais difíceis. E, em casos extremos de dificuldade, o último dos recursos: o sonho. Sonhar sempre. Acalenta a alma e preenche vazios.

Ser Professor (hoje)

 

Angústia. Desolação. Fadiga. Exaustão. Cansaço físico e mental. Um estado de alma incomparável. Sem forças para alterar o rumo das coisas. Eis o retrato do professor atual, o professor dos tempos que correm (velozmente) e que deseja, antes de mais, respeito e um estatuto consentâneo com a sua responsabilidade.

É frequente ouvir dizer: “antigamente é que era bom…“ O que era bom? Era bom ser professor? Era bom ser aluno? Era bom ir à escola?

Já não sou propriamente “jovem” mas também não sou “velha” o suficiente. Sou uma professora com trinta anos de serviço efetivo em prol da educação e, concomitantemente, em prol do desenvolvimento do país. Vivi reformas educativas (várias), executei políticas educativas (diversas), lecionei a centenas de alunos. Com maior ou menor entusiasmo, maior ou menor convicção, maior ou menor ceticismo, executei as tarefas impostas e fiz o melhor que podia (e sabia). Dei o melhor de mim. Com empenho e dedicação abracei a profissão que escolhi por vocação. Aos sete anos, em casa da minha avó, fazia da “tábua de tender o pão” a minha secretária caseira. Sobre a mesma colocava os manuais escolares com os quais ensinava os escassos “alunos” (um ou três, conforme os dias). A pequenada da vizinhança aproveitava, desse modo, para fazer os trabalhos de casa e aprender (nalguns casos) conteúdos mais avançados (que a “professora” já aprendera). Foi assim, desta forma, que o desejo se tornou real. Ainda hoje, apesar de tudo, os momentos em sala de aula, junto dos alunos, constituem momentos únicos e de grande realização pessoal. É por eles que continuo na profissão e dou o meu melhor.

Todavia, reconheça-se, ensinar no século XXI, numa sociedade em plena crise de valores, não se afigura tarefa fácil. Há cada vez mais uma ausência e/ou desuso de um conjunto de valores morais e cívicos norteantes da vida em sociedade, os quais são indicadores da cultura e do modo de estar e ser de um povo. Estamos perante aquilo que alguns designam de “crise de valores” e “ falta de cidadania”. Essa “ausência de regras” é já notória em grande parte dos nossos alunos. Os alunos evidenciam, eles próprios, os sinais dos tempos. Mais irreverentes, mais intolerantes a tudo, menos interessados na aquisição de novos saberes. Muito confinados ao seu mundo. Um mundo virtual e silencioso. Um mundo onde a partilha e o convívio escasseiam e a obediência e o respeito não existem. É difícil moldar personalidades vocacionadas para a rebeldia e para a falta de ambições. Além disso, a família enquanto estrutura de apoio está em processo de desmoronamento. A sociedade vive dias difíceis e os alunos percebem isso e absorvem as angústias subjacentes. Resultado: alunos desinteressados e desmotivados e uma Escola onde todos o profissionais da educação, entre os quais os professores, lutam para contrariar as tendências. Uma luta inglória que conduz ao estado de alma frequente nos dias de hoje: desmotivação geral.

Uma grande maioria dos professores está efetivamente desmotivada com a sua atividade. A indisciplina dos alunos, a falta de incentivos e reconhecimento profissionais, a burocratização do sistema educativo, entre outros, são alguns dos problemas inerentes à classe e que alavancam esse descontentamento generalizado. Não por falta de vocação, como alguns (os menos esclarecidos) teimam em afirmar, mas porque quem legisla desconhece o contexto real da profissão, suas lacunas e constrangimentos. Até quando vamos continuar a "reformar" o sistema educativo esquecendo um dos seus principais intervenientes? Sem professores motivados não há relação pedagógica saudável e não se atinge o objetivo último da educação: formar cidadãos plenos. É suposto os professores serem detentores de um conjunto de valores sociais, morais e éticos capazes de mover consciências e de ajudar a construir e reconstruir a realidade social. No entanto, sem a aceitação social do professor, como agente fundamental do crescimento e desenvolvimento das sociedades, a tarefa é árdua e muitas vezes não resulta. É esse desalento decorrente da tarefa de educar que conduz, muitas vezes, ao abismo emocional e, não raras vezes, ao desgaste físico. Perguntam-me: e qual a solução? Não há soluções mágicas e imediatas, mas há o acordar de consciências para ajudar a alterar políticas lesivas dos direitos de quem tem por missão a educação.

 

Maria Sebastião

 

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Ser avó (hoje)

 

O alarme acabou de tocar. São sete horas da manhã de sábado. Apesar do cansaço da semana de trabalho, sinto-me enérgica e entusiasmada com a tarefa que se segue. Ser avó “a tempo inteiro”. Tarefa complexa, atendendo à idade dos pequenos, mas ainda assim prazenteira e compensadora. Sabe-me bem ser avó. É voltar a ser mãe. Mais madura, mais paciente e mais atenta a tudo. O prazer do sorriso franco dos meus netos supera qualquer dissabor da vida quotidiana. A sua alegria contagiante anula qualquer réstia de pessimismo da vida.

Neste dia a as tarefas duplicam. Entre papas e mudanças de fralda, banhos e histórias para adormecer e dois passeios pela quinta (a meio da manhã e ao fim da tarde) para ver os animais e contatar de perto com a natureza, ainda há tempo para cozinhar umas paparocas caseiras para o resto da família pois as responsabilidades não cessam e há que manter em equilíbrio toda a estrutura.

Na minha infância os avós eram “velhos”. Homens e mulheres de cabelo grisalho (às vezes branco) que contavam histórias inesquecíveis. Daquelas que acautelavam para a vida e ensinavam (sempre) qualquer coisa. Os tempos mudaram e alteraram o perfil dos avós. Hoje, os avós são “jovens” ativos, com múltiplas tarefas a seu cargo (ainda) e uma dose de preocupações acrescida. São pessoas cansadas da profissão e das vicissitudes da vida. Pessoas preocupadas, tristes e deprimidas (muitas) sem alegria e sem tempo para os outros. Anseiam por férias num lugar tranquilo. Outras, felizmente, são pessoas alegres, bem-dispostas e que acompanham a evolução dos tempos modernos.

Também é verdade que, hoje em dia as crianças dão menos trabalho. O papel antes reservado aos pais e aos avós foi em parte transferido para a escola e para as “novas tecnologias”. O educador deixou de ser real e passou a ser virtual. Mas os avós, apesar de tudo, continuam a ser uma referência fundamental (julgo).

Os valores transmitidos pelos avós deixam marcas profundas nos netos. São base da sua personalidade. Quem sou? Para onde vou? Questões fundamenais e fortemente condicionadas pelas vivências na infância. Nesta fase da vida, todos os valores transmitidos desempenham uma função fortemente construtiva e alicerçante da personalidade futura. Marcantes, diria. Desengane-se quem considera que os mimos dos avós estragam. Os mimos e os afetos robustecem-nos e dão-nos mais confiança. Tornam-nos pessoas mais sensíveis e mais solidárias. Por isso quero mimar muito os meus netos e, simultaneamente, transmitir-lhe os ensinamentos que os meus avós (e o meu bisavô materno) me transmitiram. Valores que marcam. Valores imprescindíveis à vida em sociedade: família, amizade, humildade, honestidade e solidariedade.