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Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

Mértola está (mesmo) "na moda"

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 No beco virado ao rio, um grupo de turistas aprecia a paisagem. Enquanto se deslumbram, vão tecendo comentários; entre uma palavra e outra (que escuto sem querer) consigo perceber que uma visita ao castelo faz parte do périplo. Como este grupo, dezenas de outros visitantes optaram por Mértola, como destino de fim-de-semana ou, simplesmente, como local de passagem a caminho do Algarve.

 O calor que se fez sentir nos últimos dias não impediu que calcorreassem as ruelas do centro histórico, para conhecer um pouco mais da vila museu. E com isso, Mértola ganhou vida. É certo que grande parte dos visitantes esteve apenas de passagem; outros, porém, permaneceram por mais tempo (uma ou duas noites - de acordo com a disponibilidade financeira) aproveitando para descansar nas excelentes unidades hoteleiras à disposição - disfrutando do conforto e qualidade das mesmas, numa envolvência natural única.

 Não há dúvida: o turismo em Portugal está em fase ascendente. Mértola é um exemplo disso. Começa a ser comum: ouvir falar línguas estrangeiras nos diversos espaços públicos e ver um fotógrafo em cada esquina.

Definitivamente: “Mértola está na moda!”

 

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A "loja do Sr. Artur"

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 Há espaços que, de tão peculiares, nos transportam para outro tempo, outra realidade. Foi isso que me aconteceu quando, a pretexto de comprar uma garrafa de água, entrei na “loja do Sr. Artur”.

 Entrei, observei – durante algum tempo -, e só depois de rever algumas imagens guardadas na memória, encetei conversa com o proprietário – Artur O., que, com enorme simpatia e agrado, me explicou como é possível (ainda) manter, no atual contexto socioeconómico, este tipo de estabelecimento comercial: um misto de mercearia e retrosaria, onde se vende (e há) de tudo.

 “Depende da época” – referiu. “No inverno vendem-se mais lãs!” Embora resignado com a situação que se vive neste tipo de comércio (a retalho), está patente um brilhozinho nos olhos quando fala da loja no “antigamente”. E eu, curiosa e atenta, e num momento ou outro comovida (até), lá fui escutando a descrição detalhada da arquitetura interior do espaço, quando o mesmo pertencia aos antigos proprietários: o Sr. Eurico e a esposa Isabel Revez. Nesse momento, a memória parou-se-me no tempo: do pequeno compartimento de madeira – o escritório improvisado, o Sr. Eurico, sempre com um sorriso, saía para dar uma palavrinha de apreço aos clientes habituais ou para tentar vender algum produto. A esposa, sempre bem-disposta e extrovertida, lá ia supervisionando as vendas, enquanto deambulava atrás do balcão com um sorriso nos lábios - sempre pintados de vermelho.

 Hoje, a realidade é outra. O despovoamento acentuado do interior do país, nas últimas décadas, tem provocado repercussões negativas neste género de negócio; manter a “porta aberta” é cada dia mais difícil – na opinião do Sr. Artur.

 

 E foi assim… recordando o Passado, que o Presente se impôs aos meus sentidos.

 

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Na "rota dos sabores" 16

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 À hora marcada, a chegada: restaurante “Casa Amarela”, em Além Rio. Como é hábito (quase) diário - para aquela margem - o percurso fez-se a pé. Uma oportunidade única de (re)ver a belíssima paisagem da vila museu, que, majestosa e imponente, se afirma na margem direita do rio Guadiana. Uma imagem marcante pela rara beleza, um quadro digno de apreço. Como merecedora de apreço é a decoração da “Casa Amarela”: muito clean e muito cosy. Um ambiente que nos transporta para outras paragens - longínquas, até. Tudo pensado (e planeado) na perspetiva do conforto e bem-estar do cliente.

 A mesa reservada no terraço - sobranceiro ao rio e emoldurado pela vila museu – reporta o espaço para um quadro impressionista. E enquanto aguardo a chegada da bebida - um rosé bem gelado, da produção local - vou saboreando a magia e o encanto do momento.

 A degustação de um buffet[1] de cariz mediterrânico com salpicos de cozinha de fusão deixou-me totalmente rendida. A entrada, uma sopa fria – gaspacho – seguida de um misto de saladas e “frango de escabeche” foi o mote para uma refeição muito especial, rica de sabores, mas sem nunca perder o cunho da tradicional cozinha alentejana. Seguiu-se um “bacalhau com espinafres à casa” que acompanhei com “salada de alface, maçã e nozes”. Por fim, e porque sou alentejana e adoro: “borrego assado no forno com alecrim” acompanhado de “arroz de cogumelos” e “batatas assadas com ervas aromáticas”. Delícias gastronómicas, confecionadas pela D. Odete - a cozinheira de serviço, sob a supervisão de Marta Luz, a proprietária – e que aconselho vivamente a provar.

 A sobremesa: “bolo de chocolate acompanhado de gelado de baunilha e coulis de frutos vermelhos” - uma ode ao paladar – finalizou um magnífico jantar no restaurante cuja vista panorâmica sobre a “vila velha” deslumbra e inebria os sentidos – mesmo aos menos românticos.

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Nota: pontuação máxima para a simpatia e profissionalismo no atendimento e uma excelente relação qualidade/preço.

 

[1] O restaurante também tem disponível um menu “à la Carte”.

"Casa do Funil" - a nova casa de campo em Mértola

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Desce. Sobe. Sobe e desce. É este o ritmo das andanças na vila velha. Um labirinto de ruelas que me conduzem à rua da “Torre do Relógio”, passando pelo “funil” – uma passagem estreita por onde vislumbro o rio.

 Hoje a ida tem um motivo: inauguração da casa de campo “Casa do Funil”. A nova unidade hoteleira do burgo (que os amigos Paula e Rui tão bem souberam arquitetar e decorar).

 Antes de conhecer o novo espaço, houve lugar a uma animação de rua: uma curta peça teatral para animar os convidados. Um momento de verdadeira descontração, ou não fosse o local uma rua emblemática, deste cantinho à beira rio plantado…

 Seguiu-se um pequeno beberete - na zona de receção e loja gourmet -, onde deliciosas iguarias se fizeram acompanhar dos excelentes vinhos da região – rosé e branco bem fresquinhos.

 No final o reconhecimento do espaço e a certeza de estarmos numa casa tranquila, onde o espírito Zen se faz sentir. Recomenda-se a estadia.

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Arte (na rua)

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 Sair de casa e respirar o ar fresco do dia. Sentir o sossego da vila… apreciar as ruas (Tudo) como se do primeiro olhar se tratasse. É esta alquimia de sensações que me apraz e faz sentir completa. Num misto de cores e traços (e de contornos) vou descobrindo as obras de arte pública da vila. Obras que denunciam paixão, cultura, história, lutas e conquistas… obras do Homem para as gentes desta terra (e não só).

 Foi neste registo que deixei a lente captar esses testemunhos do engenho e da arte humana. Um olhar descontraído, com tempo (ao domingo), num dia vulgar (de inverno).

 Estar sozinha comigo e apreciar a beleza das coisas… entranhar-me no silêncio das ruas e viajar no passado. Sentir a alma dos espaços e a História que os veste.

 Quero permanecer assim (ali)… até que o presente me acorde e faça sentir distante.

 

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A loja do Sr. Relego

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 Não sei bem que idade tinha! Talvez oito, talvez nove anos. Ainda hoje o cheiro forte do café (acabado de moer) está guardado na minha memória - como se fosse ontem que o aroma, pairando no ar, perfumasse o ambiente. Além do cheiro envolvente, o ruído do moinho, triturando os grãos de café, completa o cenário da lembrança da loja de José André G. e Suc. - a loja do Sr. Relego, assim conhecida por muitos.

 Na confluência da Rua 25 de Abril com o Largo Vasco da Gama, em pleno centro da vila, a loja centenária (hoje reconvertida) manteve até aos anos oitenta a traça antiga. Do mobiliário à disposição do mesmo, dos artigos ao atendimento personalizado, tudo permaneceu imutável durante décadas. Um estabelecimento comercial (onde se vendia de tudo), cujo comércio a retalho constituiu, também, uma das suas mais-valias.

  A entrada fazia-se por duas portas, defronte do longo balcão de madeira. Atrás, as altas estantes albergavam: de um lado, os produtos correspondentes à zona da mercearia, do outro, os tecidos (e restantes artigos) na zona da retrosaria. Na parte traseira do rés-do-chão, a contra loja (como lhe chamavam), arrumavam-se os artigos excedentes (e não só). À direita do balcão e com acesso direto a partir do mesmo (ou através de porta para o exterior) localizava-se o escritório, o lugar de eleição do proprietário e gerente do estabelecimento, onde se fazia toda a escrita e contabilidade da empresa.

 Lembro-me de acompanhar a minha mãe nas compras e ficar impressionada (e curiosa) com a destreza manual do empregado da retrosaria a medir os tecidos com o metro de madeira. Ainda hoje consigo visualizar aqueles movimentos precisos das mãos e do metro. O Alfredo, assim se chamava, sustinha sempre um lápis atrás da orelha e cantarolava enquanto degustava um pequeno grão de café - um rapaz alegre e bem-disposto que sabia vender como ninguém.

 Nos armazéns contíguos, eram recolhidos os produtos tradicionais fornecidos pelos produtores locais: cereais, lã, frutos secos e outros. Uma transação comercial que fez da empresa uma referência (até aos anos setenta) no que ao comércio diz respeito.

 O (des)carregamento dos produtos, junto aos armazéns (na Rua da República), era frequente e pressupunha alguma azáfama diária por ali. Ainda me lembro do Sr. Carrilho com uma saca de estopa (dobrada de forma triangular) enfiada na cabeça, para evitar ficar empoeirado, a (des)carregar os sacos de cereal e/ou de farinha dos camiões, para dentro do "armazém das farinhas" e vice-versa. Um trabalho árduo, sem qualquer ajuda mecânica para além de um velho carrinho de mão. Outros tempos, outros métodos de trabalho...

 No armazém frontal (situado no piso superior da loja principal) estava montado o velho moinho de café, no qual o Sr. Fernando (outro funcionário) moía café, várias vezes ao dia, para que o mesmo não faltasse na “lata” da estante da mercearia. Também ali se arrumavam, em local seco e fresco, os “fardos de bacalhau” e outros produtos do género.

 Uma loja com história cuja alquimia de cheiros e sabores marcou presença até ao início deste século…

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A caixa registadora e o velho moinho de café da loja do Sr. Relego 

 

 

 

Ambientes inspiradores (8)

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 O dia amanheceu cinzento e a tarde afigurava-se pouco propícia a saídas e passeios. No entanto, a chegada (e a receção) à Quinta do Vau haveria de tornar-se num momento único e prazenteiro. Tanto quanto o necessário para que as nuvens cinzentas se dissipassem e a paisagem ganhasse uma luz e um brilho especiais…

 O acolhimento proporcionado pela D. Zezinha (a proprietária do espaço) não podia ser melhor. Entre uma chávena de café e uma fotografia ou outra, a conversa foi fluindo num tom ameno e familiar. A calma e a tranquilidade emolduraram aquele momento.

 A quinta proporciona uma vista deslumbrante sobre Mértola; um espaço onde o tempo nos dá tempo e a paz nos abriga a alma… Um ambiente (verdadeiramente inspirador) que apela à memória dos tempos e reaviva a história da vila museu.

 Escolhi o quarto nº 5. Por nenhuma razão em especial. Talvez paixão à primeira vista. O branco imaculado da decoração salpicado de pequenos apontamentos em castanho e nude tornam o ambiente acolhedor e muito confortável. Apetece estar ali a contemplar a paisagem. Perder-me nos pensamentos e descontrair… E foi isso que aconteceu.

 Na Quinta do Vau tudo foi pensado para ajudar a relaxar: a simpatia no atendimento, a decoração, o perfume no ar e o silêncio absoluto em particular. Uma alquimia de coisas boas que proporcionam bem-estar e a tornam num lugar mágico.

 Recomenda-se (vivamente) ficar alojado nesta casa de campo. Por tudo isto e muito mais. Nem que seja por uma noite, vale a pena sentir o silêncio e a paz acolhedora deste lugar magnificamente localizado.

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Nota: agradeço aos proprietários da Quinta do Vau a estadia que me proporcionaram, bem como a simpatia e amabilidade no acolhimento. Parabéns pelo investimento em prol do turismo de Mértola. Bem hajam e felicidades.

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O Alentejo “está na moda”

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 Li, ontem, num jornal regional, que o The New York Times sugere para visitar, entre mais de cinquenta destinos mundiais, o Alentejo. Para além do prestigiado jornal, outras publicações colocam o Alentejo no top dos destinos a visitar em 2015.

 Seja pelas referências gastronómicas e vinícolas, seja pelas riquezas naturais e paisagísticas, o Alentejo tem vindo, gradualmente, a ser (re)conhecido.

 Quem visita a região de Bordéus, por exemplo, reconhece a grandeza do enoturismo numa das mais destacadas regiões vinícolas mundiais. O património cultural e histórico associado à produção de vinhos projetou a França como destino de eleição a esse nível. Em Portugal, o turismo associado à produção de vinho tem no Alentejo uma referência relativamente recente, mas já em franco desenvolvimento. Além desta vertente, outras (não menos importantes) têm contribuído para a crescente procura do Alentejo como destino turístico.

 Vejamos alguns casos: Évora, cidade património mundial, com um espólio arquitetónico destacável e um espólio etnográfico de excelência, com unidades de alojamento de elevado nível como é o caso do Ecorkhotel (eleito pela revista digital designboom como um dos hotéis e resorts mais surpreendentes; Beja, um concelho em franco desenvolvimento no que ao enoturismo diz respeito, com unidades de alojamento de elevado nível como a Mallhadinha Nova e outros concelhos em ascensão relativamente a esta vertente económica.

 Entre os vários concelhos alentejanos destaco o concelho de Mértola. Inserida numa região de características naturais únicas e de elevado valor patrimonial – em pleno Parque Natural do Vale do Guadiana -, Mértola - a vila museu - é já merecedora de destaque no que ao alojamento turístico se refere: do Hotel Museu à Quinta do Vau, da Casa da Tia Amália ao Monte do Alhinho, são várias as unidades hoteleiras de qualidade à disposição dos visitantes. Por outro lado, a componente natural e paisagística envolvente permite o desenvolvimento de inúmeras atividades capazes de dar resposta ao visitante mais exigente: caça, desportos náuticos, caminhadas, cycling, birdwatching, … etc. E, naturalmente, o próprio Museu de Mértola, cujos núcleos reúnem um conjunto significativo de elementos de grande significado histórico e cultural.

Motivos, mais que suficientes, para visitar o Alentejo.

Alguém duvida?

Chegou o presépio!

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 Com a proximidade do natal as decorações alusivas à quadra já começaram a dar o ar da sua graça.

 Não sou muito apreciadora da época (já o disse), mas confesso que os presépios me cativam. Desde criança que aprecio as figurinhas simbólicas - metodicamente arrumadas e coordenadas entre si.

 Com a chegada do mês de dezembro, a minha mãe - como qualquer mãe de família cristã -, incentivava os filhos a montar o presépio. Mas antes disso havia a tarefa da colheita do musgo, na floresta próxima de casa. A dita recolha, que representava sempre um motivo de diversão, fazia-se, quase sempre, nos locais sombrios e húmidos, por ser aí que o tapete verde das minúsculas plantinhas – as funárias -, adquire maior espessura. A minha avó Jacinta, que nos acompanhava, gostava destas incursões pelo campo, durante as quais nos ia sensibilizando (e ensinando) para as leis da natureza – à sua maneira e sem grandes teorias, claro.

 Finalmente a decoração do presépio ficava-me reservada. E como eu gostava de colocar os pequenos “figurantes” - de barro pintado -, no seu lugar próprio… ainda que, mais tarde, a minha mãe desse o retoque final na arrumação.

 De entre todas as figuras do presépio, a minha atenção incidia sobre o Menino Jesus e os animais – particularmente a vaca e o burro. Ainda hoje me entusiasmo com o presépio… como o presépio da rotunda da avenida que todos os anos faz as delícias dos transeuntes.

 De noite e de dia, os representantes da Sagrada Família (e os Reis Magos) ali permanecem, dando as boas vindas a quem chega… e despedindo-se de quem parte.