Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

O “velhinho” Café Guadiana

IMG_5031.JPG

 

 Mesmo ao lado da muralha - na entrada para o centro histórico da vila de Mértola - o velhinho (mas sempre renovado) café Guadiana vai resistindo à evolução dos tempos.

 Da esplanada - no terraço sobranceiro, sente-se o pulsar do burgo: quem passa - na estrada; quem entra e quem sai da pequena loja gourmet - na esquina em frente; quem chega e quem parte do largo. Estrategicamente localizado, o emblemático estabelecimento marcou a vida social da vila museu, sobretudo, durante a segunda metade do século XX.

 Embora exista um movimento típico no largo Vasco da Gama - que dinamiza e agita o sítio - nada se compara aos cenários de outrora: aqui chegavam os velhos autocarros da Eva e da Rodoviária - que asseguravam o transporte para outras regiões, ali se situava a praça de táxis e a maioria dos estabelecimentos comerciais mais relevantes na altura.

 Havia azáfama nas horas da chegada e da partida… e o fumo negro dos escapes entranhava-se e cheirava à distância. Por entre a nuvem de gases, deambulando entre um cigarro e um “copo de três”, o velho Faxenita- figura típica, animava as conversas e incutia-lhes a novidade desejada. Nada ficava no segredo dos deuses depois de chegar aos ouvidos do velho moço de recados.

 Por entre o alvoroço - junto à antiga paragem dos autocarros, o pregão dos gelados Nicolau entoava nos ouvidos dos transeuntes. Aqui e além uma ou outra criança - puxando as saias da mãe - lá alcançava o desejo: comer um “gelado de baunilha com cobertura de chocolate” (o mais apetecido de todos).

 Enquanto na rua a agitação das gentes se fazia sentir, no interior do café o tempo decorria a outro ritmo. Um tempo tranquilo e mais direcionado para notícias do dia. Entre uma ou outra coscuvilhice, uma ou outra brejeirice, os homens – principais frequentadores do café naquela época - trocavam ideias e teciam negócios com cheirinho a café e bagaço. Um cenário dos filmes de Copolla, numa atmosfera de aromas… persistentes - até hoje, na minha memória.

 Havia cadeiras e mesas estrategicamente colocadas - de frente para a porta de entrada, para uso exclusivo da elite local. Diz-se, até, que um certo senhor abastado teria ali a “sua cadeira” e que ninguém ousava lá sentar-se. Outros tempos, outras mordomias.

 O tempo passou e alterou a história. Hoje - apesar do ritmo social ser outro, há temáticas que continuam a gerar verdadeiras tertúlias: caça e futebol. Temas imutáveis que atravessaram gerações (e famílias) e que o Henrique - o funcionário mais antigo no café - faz questão de manter.

IMG_5026.JPG

IMG_5027.JPG

IMG_5032.JPG

IMG_5035.JPG

IMG_5030.JPG

 

 

 

 

 

 

 

 

(Cinco) razões para visitar Mértola

 Dizia-me (ontem) um casal de viajantes “sem rumo” (ele inglês, ela francesa): «A primeira vez que subimos o rio, em direção a Mértola, e nos deparámos com a vista desta vila na encosta, ficámos boquiabertos. Esta paisagem deslumbrou-nos!». Hoje, passados alguns anos, estão de volta à vila museu. O pequeno veleiro, ancorado no rio, junto à ponte, serve-lhes de abrigo há quinze anos.

IMG_5008.JPG

 Tal como este casal, muitos turistas, ultimamente, escolhem Mértola como destino. Há várias razões para incluir a pequena vila alentejana nos circuitos turísticos. Pessoalmente indicaria cinco motivos para visitar Mértola: o património histórico e cultural; a envolvente natural; os eventos culturais, usos e costumes das gentes; os recursos cinegéticos e os produtos tradicionais.

 A pequena vila - humilde e plena de encantos (e mistérios) – há muito se impôs na margem direita do Guadiana. Companheiros de sempre. De mãos dadas, caminhando, resistentes aos séculos e às agruras da vida... Um percurso feito a dois, para sustento da sua comunidade.

014.JPG

 Um breve encontro no centro da vila – no histórico café Guadiana - e avanço calcorreando as ruas. Em cada esquina me detenho. No empedrado, gasto pelo tempo, vislumbro a História… tantas histórias para reviver, tanta cultura para lograr. Abraço esse passado com garra e continuo revisitando espaços.

 Voltas e reviravoltas e o meu olhar recai no ex-libris de Mértola - a torre do relógio. Sem dúvida alguma, um dos monumentos mais bonitos da vila. Porventura o mais vezes pintado, pela mão do malogrado artista Mário Elias. Um ícone da arquitetura local, sem rival. De noite, ou de dia, a emblemática obra junto à muralha virada para o rio, não passa despercebida.

001.JPG

 Para além daquele símbolo arquitetónico, outros se impõem no velho burgo: o castelo e a igreja matriz. E, mais eu andasse, mais haveria para destacar no que ao património histórico e cultural de Mértola diz respeito. Um mundo de outrora - presente nas ruelas íngremes e estreitas.

 Chego ao castelo. O centro do burgo antigo. Dali avisto o horizonte longínquo e a envolvente que me circunda: um ondulado sem fim que me transposta para épocas distantes.

 Recuo no tempo. Quase trezentos milhões de anos me separam do mar profundo que banhou estes terrenos. Mundos extintos, gravados nas rochas, e cuja presença se impõe (ainda hoje) sob os mais diversos aspetos - como a faixa piritosa onde nos situamos, o pulo do lobo e outras estruturas geológicas de suprema importância no concelho.

IMG_1198.JPG

IMG_2035.JPG

IMG_2056.JPG

 

 São estas riquezas naturais que me seduzem. Há um mundo natural por descobrir aqui. A diversidade de fauna e flora do Parque Natural do Vale do Guadiana – com destaque para as espécies cinegéticas - são motivos suficientes para uma estadia aqui.

 Continuo a minha “viagem” e dou por mim no outro lado do rio: em Além-rio. Nunca percebi muito bem (ou percebo) esta minha forte atração por este” bocado” de Mértola. Ali, sinto magia no ar - sobretudo no silêncio da tarde (e da noite). A visão do casario (na encosta oposta) surge majestosa. Poderosa mesmo. Sinto-me pequenina e humilde. Uma sensação de nostalgia invade-me (sempre) o pensamento. De repente apetece-me recuar no tempo e rever pessoas, factos e eventos… como todos os eventos culturais que animam este povo e estas gentes: o festival islâmico, a feira da caça, a feira do mel, queijo e pão (e tantos outros por este concelho dentro). Um mundo de tradições, de usos e costumes, de sabores, únicos e intemporais.

IMG_2549.JPG

 

002.JPG

 

 Vale a pena uma incursão nesta terra – à semelhança do que um dia fez o casal de viajantes - nem que seja por um dia. Mértola agradece (e as suas gentes também).

 

 

 

 

 

 

Marmelos e romãs (frutos de outono)

 Ao cair da tarde, na horta – junto à casa onde nasci, os marmeleiros que circundam a cerca de madeira prendem-me a atenção. Nos ramos pendentes, os frutos amarelo-dourado clamam a colheita. Enquanto isso, o pensamento corre veloz e transporta-me para o passado (recente).

 Viajo no tempo e vivencio momentos únicos e irrepetíveis: a minha avó, sentada na varanda da casa, a descascar os “frutos dos deuses” - para mais tarde fazer as tão desejadas marmelada e geleia. E eu, entre uma brincadeira e outra, lá ia ajudando (ou complicando) na tarefa.

 Folheio mais um pouco o livro das memórias, e noutra página revejo: as tigelas de porcelana, plenas do doce apetitoso, ainda fumegante. Mais tarde (depois de arrefecer), um círculo de papel vegetal servir-lhe-ia de tampa. E assim se conservava - durante o outono e inverno - até ao momento de ser consumido - normalmente com uma boa fatia de pão caseiro a acompanhar um chá de lúcia-lima ou de cidreira (os mais consumidos lá por casa).

 Noutras alturas, assavam-se os marmelos no forno de lenha - conjuntamente com o pão - para servirem de sobremesa (à semelhança das maças e das batatas-doces).

 Mais além, noutro canto da horta, uma velha romãzeira ostenta orgulhosamente os seus “frutos exóticos”: as simbólicas romãs. Um fruto de sabor agridoce, desde sempre muito apreciado. Para além das qualidades nutricionais (é rica em antioxidantes), a romã apresenta baixo nível de calorias. Devendo, por isso, fazer parte de qualquer regime alimentar - equilibrado e saudável.

 Outros frutos, outras histórias. Lembranças da infância, que me acompanham nesta breve revisitação pelo passado: recordo-me da minha avó “desbagulhar” meticulosamente as romãs para eu comer os bagos de cor vermelho-rosado, às vezes polvilhados de açúcar. Momentos de “doçura” simples, mas carregados de sentido.

 Os marmelos e as romãs são frutos carregados de simbolismos e crenças. No caso das romãs, dizia-se lá por casa que se deveria “comer uma romã no Dia de Reis para não faltar dinheiro durante o ano”. Crenças à parte, ainda hoje, ambos os frutos fazem parte do regime alimentar dos povos do mediterrâneo (e não só).

IMG_4977.JPG

IMG_4983.JPG

IMG_4989.JPG

NOTA: os marmelos, frutos oriundos da Ásia Ocidental e conhecidos dos gregos desde o séc. VII a.C., que os ofereciam aos deuses. «Para o povo, oferecer um marmelo era uma prova de amor: um decreto de Sólon, no século VI, oficializava a função do marmelo nos ritos nupciais.» (Digest, 1983). O marmelo foi (durante muito tempo) utilizado na medicina antiga - devido às suas qualidades adstringentes - por se julgar que era um antídoto de venenos (Digest, 1983).

A romãzeira - um arbusto oriundo da Ásia Ocidental – chegou mais tarde à Ásia Oriental e aos países mediterrânicos, onde se difundiu rapidamente. Aqui, as aves foram os principais agentes da disseminação. A romã foi um fruto muito apreciado pelos Árabes, os quais a cultivaram intensivamente esta planta no sul de Espanha. «A cidade de Granada (romã em espanhol, ostenta desde o século VIII o nome do fruto.» (Digest, 1983).

A romãzeira e o seu fruto estão ligados a um grande número de tradições e costumes, para além da forte carga simbólica que sempre esteve associada aos mesmos. Foram múltiplas as utilizações dadas ao sumo da romã – e até à casca, à raiz e à flor da romãzeira - na medicina antiga (Digest, 1983).

Referência bibliográfica: Digest, S. d. (1983). Segredos e virtudes das plantas medicinais. Lisboa.

Por veredas... até à vila

 Ontem, a propósito da feira de S. Mateus, lembrei-me do tempo em que as pessoas das aldeias em torno de Mértola tinham de andar a pé durante uma, duas ou mais horas para chegarem à sede de concelho, onde faziam as suas compras.

  Não muito longe daqui, num pequeno monte conhecido por monte do "Ti Guerreiro” vivia um casal de meia-idade, sem filhos, cujo sustento se baseava – quase exclusivamente - nos recursos provindos das atividades ligadas à exploração da terra e criação de animais. 

 Certa vez - a convite da “Ti Florinda” (a esposa) - fui visitar o dito monte com a minha mãe e a minha avó materna. Na pequena casa rústica - feita de taipa e despida de luxos - apenas as abóboras, os frutos secos (figos e amêndoas) e o pão acabado de cozer no velho forno de lenha, saltavam à vista (e a todos os sentidos). Lembro-me – nomeadamente – dos cheiros que inundavam a casa… e da sensação de solidão e isolamento que senti naquele lugar que apelidei de “monte dos vendavais” - talvez por ser um lugar extremamente árido e ventoso.

 Longe de tudo e de todos - somente os habitantes do povoado mais próximo – a Corte Pequena - levavam notícias do Mundo (e alguma agitação) à vida daquele casal. Era ali que os ditos habitantes embarcavam no pequeno bote do “Ti Guerreiro” - ancorado no rio junto ao desfiladeiro - para fazer a travessia até à outra margem do Guadiana.

 Seguia-se uma longa caminhada (de cerca de sete km) por trilhos íngremes, em ritmo de sobe e desce, até à vila, onde se abasteciam das mercearias essenciais para quinze dias ou um mês - conforme as necessidades. À tarde, já de regresso, o cheirinho do café moído e do bacalhau, embrulhados em papel pardo, tresandava à distância… e eu, a brincar na varanda da minha avó, assistia à chegada um a um dos residentes de Corte Pequena, que ali paravam para beber água fresca ou (simplesmente) descansar entre um pé de conversa.

 De todos recordo-me, sobretudo, do “Ti Chico Rodrigues”, o velho taberneiro da aldeia. Talvez por ser aquele que transportava às costas o volume maior: um saco de pano pejado de géneros alimentícios e tabaco e nas mãos dois garrafões de vinho – os velhos garrafões de vidro revestidos com verga. Aparentando ser um homem mais velho do que na realidade era, tinha agilidade e força suficientes para transportar até casa o carregamento das compras por caminhos longos e penosos.

 Tempos difíceis, de homens e mulheres que sentiram na pele a ausência do progresso e do desenvolvimento… Vidas simples, repletas de sacrifícios e privações, mas felizes (segundo consta).

 

 

 

Férias (de outros tempos...)

 

O mês de agosto lembra-me férias em família e com amigos. Os dias longos e a liberdade de ação, sem compromissos profissionais, geram um bem-estar incomparável com outros meses do ano. É um mês de férias por excelência. Apesar do hábito se manter, há décadas atrás algumas famílias passavam dois ou três meses de férias no algarve. Uns em casa própria, outros em casa alugada (normalmente a mesma casa anos e anos a fio) e outros, ainda, permaneciam no hotel em regime tudo incluído. Disfrutavam assim do mar, do sol e da vida mundana que o sul proporcionava. Agendavam jantares e almoços entre amigos e davam longos passeios na marginal, o “passeio das vaidades”, onde exibiam as tendências da moda. Outros, mais recatados e menos dados à exposição pública, ficavam por casa a descansar ou na varanda da casa a refrescar-se e a ver passar os veraneantes ávidos de movida e de vida social.

Havia alegria e convívio constantes. Os dias sem programa lúdico rareavam. Por vezes o programa fazia-se na própria praia, no bar da zona frequentada pela família e grupo de amigos. Aí se reuniam, todos quantos passavam o dia na praia, normalmente à hora do almoço, para mais umas horas de convívio. Às vezes o almoço prolongava-se demasiado e as crianças, já saturadas e ansiosas para mais uns mergulhos, acabavam fazendo tropelias. Ou a bola batia onde não devia, ou o toldo do vizinho era invadido para um joguete qualquer, entre outras peripécias.

No convívio entre amigos, além das petiscadas frequentes, havia tempo para longas tertúlias. As conversas no masculino giravam, por norma, em torno dos temas: desporto, carros, negócios e… mulheres (claro). Estas, mais dadas a fofocas, passavam mais tempo a falar dos filhos e das angústias da vida doméstica do que era suposto em tempo de férias. A criançada entretinha-se no café “da esquina” a jogar matraquilhos, um jogo que atravessou gerações e que ainda hoje desperta interesse. Desse modo, gastava a energia ainda disponível e assegurava uma noite tranquila de sono.

Antes do final das férias, havia sempre um dia dedicado às compras por terras de Espanha. Aiamonte (Ayamonte, como se diz em bom castelhano) era o destino. A travessia do rio Guadiana era feita de ferry a partir de Vila Real de Stº António, o local de embarque. Logo após a travessia o grupo dividia-se. Por norma os homens ficavam com as crianças para deixar as mulheres mais livres para as compras, dado serem normalmente estas as responsáveis pelo setor da economia doméstica de primeira linha: alimentos, produtos de higiene e limpeza, vestuário, etc.

Enquanto os homens se entretinham a procurar marisco fresco nos vários armazéns de revenda, as mulheres percorriam todas as lojas à procura das últimas novidades. No final do dia (ou da tarde, ou da manhã), depois do périplo completo e envoltas numa mistura de aromas florais fortes, carregavam os sacos das compras. Entre os vários produtos não faltavam o típico gel de banho, os cremes de rosto e corpo, os perfumes e as “famosas” alpercatas (de sola compensada), de atar à perna, muito usadas na época. Um dia (ou parte dele) bem passado e que todos os anos se repetia.

Com a livre circulação de pessoas e bens ir às compras a Aiamonte vulgarizou-se. Além disso, muitos dos produtos, antes inacessíveis em Portugal, passaram a constar das prateleiras de qualquer hipermercado, deixando de ser uma “novidade”. É caso para dizer que a globalização alterou hábitos e rotinas. Modos de estar (e de ser) que se alteraram fruto das mutações sociais e económicas. Vivemos outros tempos, outros ritmos. Melhores? Piores? Estas e outras questões levar-nos-iam para outros campos, outras problemáticas...

A feira (de S. Mateus)

É frequente ouvir dizer: “a tradição já não é o que era.” Concordo (em parte). Há de facto alterações sociais, económicas, culturais que acompanham a evolução dos tempos. Outras nem por isso. Os mais conservadores (julgo) sentem-se mais ligados às origens, ao passado. Vivem o presente e projetam o futuro em função das suas vivências passadas. Vivem em função do princípio da imutabilidade das coisas. Não sou assim. Mas confesso que sinto algum apego a tudo o que me fez feliz, num ou outro momento passado. Talvez por isso dê comigo a recriar episódios da infância (e juventude) que me marcaram para a vida.

Como o dia da feira (de S. Mateus). Naquele tempo, as ruas 25 de abril, da República e Cândido dos Reis, bem com o largo da escola primária e arredores, acolhiam as inúmeras tendas (e bancas) dos vendedores ambulantes.

 

 

Logo à entrada, na rua 25 de abril, as bancas com doçarias impunham-se aos olhos do público. Lembro-me do pinhonate (uma espécie de “pinhoada” com amêndoa) que o Tio António transportava num grande baú e vendia rapidamente por ser muito bom (mas caro também). Também o torrão de Alicante fazia as delícias de pequenos e graúdos. Além dos bolos tradicionais (e não só). Assim se fazia a subida da rua até ao largo da escola primária onde a pista dos carrinhos de choque exibia as novidades da música popular (e não só) tornando mais atrativas as manobras ao volante dos “bólides de ferro”. Eram autênticas corridas labirínticas onde cada “piloto” tentava escapar aos choques do “adversário” demonstrando a sua perícia na arte de conduzir. Tardes (inteiras) passadas a gastar as economias do mealheiro (feito a propósito). A diversão dos jovens, na feira, passava por ali. À noite, as idas à feira eram quase sempre feitas em família e para assistir ao espetáculo do velho circo Atlas. À entrada comprava-se o algodão doce para adoçar a boca enquanto se fitava com atenção a menina do trapézio, o malabarista, o domador de leões e os palhaços. Sempre os palhaços para alegrar a criançada e fazer rir os adultos, pois só estes percebiam o verdadeiro significado daqueles diálogos.

 

 

A feira era um acontecimento marcante na vida dos mertolenses. Logo pela manhã começam a chegar à vila pessoas de todo o concelho. A manhã era, normalmente, dedicada às trocas comerciais e venda de gado na “corredora”, assim se chamava o local, junto à antiga cerca do Carmo, onde se reuniam os negociantes de gado e os ciganos que naqueles dias por ali acampavam com as suas bestas. Por hábito os habitantes das freguesias mais afastadas vinham de manhã à feira. Depois de almoço regressavam a casa (ou até antes). A tarde, mais calma, concentrava, sobretudo, pessoas da freguesia sede de concelho.

Havia de tudo nas feiras. As novidades chegavam por esta via às zonas do interior do país. Era uma lufada de ar fresco na vida das populações. Havia quem se preocupasse com o traje que levaria para a feira, com muita antecedência. A cabeleireira (única) levava uma semana de trabalho intenso e às vezes (na véspera) trabalhava até altas horas da noite. Lembro-me de ver a minha mãe fazer permanente “a quente” (como lhe chamavam). Recordo-me do cheiro caraterístico dos “rolos quentes” e do papel a enrolar o cabelo. Gostava de observar aqueles rituais. Apreciar os penteados elaborados e sentir o cheiro da laca Sunsilk (muito usada na época).

Nesse dia acordava cedo. Ansiosa por chegar à feira. Corria para as bancas dos brinquedos e apreciava cada um com grande entusiasmo. Não apreciava, particularmente, bonecas. Nunca percebi porquê. Só mais tarde (quase com 9 anos) achei piada a uma boneca de cabelos ruivos e vestido verde-esmeralda que a minha mãe me comprou na feira, à qual não pude ir por estar doente. Talvez a pieguice da doença me deixasse vulnerável e sensível, ao ponto de me apaixonar fortemente por aquela criatura de plástico. Um brinquedo simples mas que marcou (para sempre) a minha infância.

 

 

Os tempos passaram, mudaram, e com eles as feiras. Os momentos marcantes da infância, esses permanecem guardados na memória. E ainda bem.

Ponte(o) de encantos e desencantos

Sou da era dos sistemas analógicos. Do tempo em que os jovens não dispunham de internet (nem redes sociais) para ocupar os tempos livres. Quando o convívio entre os jovens era feito em tempo real. De partilha de momentos em grupo.

Desses momentos, únicos, recordo (entre outros) os “passeios à ponte”. Era, sobretudo, no verão, ao fim da tarde e/ou à noite, que esses passeios tinham lugar mais amiúde.

 

 Ponte sobre o rio Guadiana (Mértola)

 

Quem não se lembra das idas à ponte nas noites quentes de verão? Ali se contavam histórias, se teciam enredos, se cantavam serenatas, se viviam paixões. Local de encontros e desencontros. De paixões, amores incompreendidos, de falsidades até. Ali, longe de tudo e de todos, os jovens sentiam-se protegidos dos olhares indiscretos e da “censura social”. Por ali se afirmava o espírito sixty da época. Alguns desses jovens viviam noutros locais e regressavam nas férias trazendo consigo ideias novas, “ideias da moda” (como alguns lhe chamavam). O que agradava, sobretudo, àqueles que sem grandes posses não podiam sair e libertar-se, desse modo, das amarras da família e da sociedade.

Era, especialmente, nas noites de luar que os jovens, em grupos, dispersos pelo passeio da ponte, se entretinham com longas tertúlias, as quais se prolongavam madrugada fora. Muitas vezes, o som de uma viola ecoava mais além e o dedilhar nas cordas, quebrando o silêncio da noite, dava outro ritmo à conversa. Outros tempos, outras vivências. Tempo de partilha, tempo para os outros.

  

  Mértola vista da ponte (e tabuleiro da ponte em baixo)

 

E assim, a velha ponte sobre o Guadiana, elegante e majestosa, palco de recordações (boas e más), marcou a vida da juventude mertolense ao longo de várias gerações.

Os passeios, esses, continuaram (até hoje) mas com outro significado e sem o glamour de outrora.

 

 

Guadiana, o (meu) rio

Sento-me no miradouro sobranceiro e contemplo o Guadiana, o grande Rio do Sul. Correndo de mansinho, às vezes revolto, como se estivesse zangado com o Mundo. Mal-amado (durante décadas) por todos aqueles que, não respeitando a riqueza que albergava, poluíram as suas águas em prol do desenvolvimento das suas indústrias. Salvo por quem, acreditando nas suas potencialidades, o valorizou enquanto recurso natural. Hoje o rio corre calmo e sereno. Tranquilo e renovado. O leito de estiagem de águas escasso deu lugar a um espelho de água límpida e cristalina onde a vida pulula e se agita e as lanchas dos pescadores (em número cada vez mais reduzido) deram lugar às canoas e aos caiaques dos jovens do Clube Náutico.

 

 Azenhas do Guadiana (Mértola)

 Moinho de Água (Azenhas do Guadiana, Mértola)

 

O Guadiana de outrora voltou a “sorrir”. E as gentes das suas margens voltaram a sentir o palpitar da vida que o povoa. O canto da garça no final da tarde, o “saltor” que emerge da água, o resmalhar da lontra entre os caniços à procura do mexilhão do rio. Gosto de observar o rio e os seus “habitantes”. Faz-me recordar os longos dias de verão passados nas azenhas (junto a Mértola), a praia de grande parte da população. Ali, entre moinhos de água (as azenhas), os jovens, aproveitando a maré cheia, mergulhavam nas zonas mais profundas ou brincavam ao “peixe-olho” - uma espécie de joguete às escondidas na água.

 

 Rio Guadiana (na zona dos Canais)

 

Outra lembrança desse tempo: a lavagem das “mantas”. Quando o calor se instalava e as camas prescindiam de tais coberturas, havia quem preferisse lava-las nas águas correntes do rio, pois tornava mais fácil a tarefa manual. Nesse dia, o mulherio (e a criançada) chegava bem cedo para  montar a “lavadeira” (uma pedra de superfície lisa e suficientemente larga para o efeito). Enquanto as mulheres lavavam a roupa em amena cavaqueira, as crianças brincavam na água, numa risota e galhofa constantes. Todos faziam deste dia uma autêntica festa. Ao almoço, no piquenique da praxe, não faltavam o presunto, o paio e o queijinho (caseiros) e outras iguarias que sabiam ainda melhor. Sobre a toalha, meticulosamente estendida nas ervas da margem, não faltavam as frutas frescas da época (melão, figos e melancia) e a água fresca do barril de barro que permanecia enterrado na areia húmida para se manter fresco.

À tardinha, depois da roupa secar na encosta da margem, era chegada a hora do regresso a casa. A pele tostada pelo sol (em excesso) e o cheiro do rio entranhado na pele ficavam retidos na memória. São essas memórias que se avivam quando, parada no miradouro, observo as Azenhas do Guadiana junto à quinta onde nasci. E penso: fui tão feliz aqui!

 

Moinho (de água) dos Canais

 

 

 

Na "boca da ribeira"

Caminhada longa. Entro na “boca da ribeira”. Assim lhe chamam os mertolenses. Aprecio este sítio (aliás sempre gostei de ali passar). Há magia naquele local. É uma espécie de fim e de início de percurso… ali começa, por exemplo, o Percurso Ribeirinho, um dos caminhos pedestres disponíveis para quem quer descobrir Mértola.

 

Ponte da Ribeira de Oeiras (Mértola)

 

Na encosta virada a sul, uma velha casa de múltiplas janelas (quase todas diferentes) sempre captou a minha atenção. Aprecio cada uma. Às vezes demoro-me na contemplação. Porém, o som do motor do pequeno barco no rio, ao fim da tarde, despertou-me a atenção e fez-me regressar a outros tempos (e a toda uma vida). Repentinamente, aquele som reavivou memórias de dias magníficos de verão. O meu verão azul! E tudo ganhou vida em meu redor. As cores dos pequenos barcos a remos (as lanchas do Guadiana), o cheiro das ervas molhadas junto à margem, o chilrear dos pássaros na ribeira. Sinto na pele a água fresca da maré...

Desço apressadamente o caminho até ao rio. Mas ainda há tempo para apreciar a “casinha” do Zé da Ludovica a meio da descida, decorada com temas alusivos à pesca. Fico, mais uma vez, curiosa. O que terá no seu interior? Continuo a descida...

Chego à Torre do Rio e ali me detenho por instantes, mirando os velhos “torreões” resistentes ao tempo e às memórias. Sento-me no rochedo contíguo e aprecio o “além rio” onde a grande “casa amarela”, (quase) vaidosa, se destaca das restantes. Respiro fundo o odor das ervas. Deixo-me levar na corrente do pensamento e ouço os “moços da vila velha” em algazarra no penedo de onde mergulham aos pares para a água tranquila da maré cheia…

Havia (muita) vida no rio! Penso.

E a pequena lancha deixando atrás um rasto na água calma, que gradualmente se desvaneceu, transporta-me para o presente e afasta-se… não como as memórias do rio, que permanecem até hoje (até agora).

 

 

 

Casinha do Zé da Ludovica

 

 

Torre do Rio

 

 

Além Rio (vista parcial)

 

 

Lancha no Rio

 

 

NOTA: o termo "boca da ribeira", muito usado entre os mertolenses, é referente à foz da Ribeira de Oeiras (um afluente do rio Guadiana), junto à vila de Mértola.

A “minha escolinha”

Num destes dias (recentemente) ao passar na rua Maria Luísa Sales (em Mértola) olhei de maneira diferente o edifício amarelo e branco à minha direita. A escola primária. De repente, avivei memórias, revi imagens do passado. Vi-me no pátio, de bibe (a bata, como lhe chamávamos) a brincar com outras meninas (como eu). Os rapazes, esses brincavam, normalmente no lado oposto. Por instantes, entrei e recordei a menina de cabelos ondulados, tímida, de poucas falas, sentada na velha carteira de duplo assento, atenta às explicações da professora Nazaré. Senhora de porte distinto, de feitio difícil (às vezes), que com rigor e qualidade me ensinou a soletrar o a,e,i,o,u… Relembro o recreio e a corrida até à casa da "Ti Assunção" para comprar a fatia do “bolo de mel”, acabado de fazer no fogão a petróleo. Sabor que me marcou e viciou (até agora). Ainda hoje o bolo de mel (bem caseiro) é um dos meus preferidos.

 

 

Escola Primária  (atual Centro Educativo de Mértola)

 

 

 

Casinha da "Ti Assunção" (mais à direita na imagem)

 

Hoje, a velhinha escola primária, outrora igreja, renovada e equipada para o futuro, continua a impor-se no casario envolvente. Há muitas escolas, mas esta é diferente, aos meus olhos e aos olhos de todos quantos por ali passaram. A carga emocional e afetiva que transporto no meu olhar, transformam a “velha escolinha” numa relíquia da minha infância. Ali aprendi a língua de Camões, os nomes dos meus antepassados, os órgãos do corpo humano. São tantas as memórias quantas as histórias…

 

Escola Primária e o Núcleo Museológico da Basílica Paleocristã