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Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

Pôr-do-sol no Alentejo

Teria (julgo) os meus doze anos, quando escrevinhar sobre emoções e sentimentos se tornou um hábito: numa espécie de diário, registava palavras soltas sobre os pensamentos mais íntimos. Desde essa altura, que me lembro do efeito benéfico do pôr-do-sol, no meu estado de espírito. Ainda hoje, essa influência perdura: adoro a luz dos amantes e dos encontros românticos; a luz da fantasia da primavera da vida; a luz dos sonhos efémeros; a luz da tranquilidade dos campos, à tarde, no Alentejo. Adoro o pôr-do-sol.

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Portas (da vila)

Dei-me conta, um destes dias, de estar a fotografar portas, na "vila velha" (em Mértola), enquanto caminhava por ali. A variedade de estilos e cores das ditas "aberturas" não me deixou indiferente. Umas mais antigas, outras nem por isso. 

Optei pela fotografia; outros há que preferem transferir o seu olhar para uma aguarela, um desenho a carvão, etc. Seja de que jeito for, com mais ou menos beleza, as portas sempre constituíram um elemento fundamental da estética arquitectónica; uma fronteira entre um domínio público e um domínio privado.

Em simultâneo, e enquanto os olhos observaram, a mente construiu narrativas, que a memória foi ilustrando: o tempo das conversas entre vizinhos, no poial da entrada, nas noites de verão... das mães a espreitar nos postigos, enquanto a criançada brincava às escondidas, nos becos... das velhotas na soleira, à espera de um bom dia... verdadeiras molduras, de quadros cada dia menos realistas; testemunhos de relações sociais saudáveis; resquícios de outra época - a do tempo do convívio ao ar livre (sem redes sociais, nem videojogos). 
Uma miragem, nos tempos atuais, que os mais saudosistas vão recordando...
 

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A caminho da ribeira

 

Chego à aldeia, quase ao entardecer. O silêncio quebra-se quando atravesso o casario, em direção à ribeira: um cão que ladra vem ao meu encontro; dirijo-lhe meia dúzia de palavras e um gesto de afeição. Nada temo do velho animal, cansado da mudez dos dias...
Prossigo a caminhada, sentindo em comunhão o corpo e a mente, enquanto inalo os aromas do campo. No pinhal, a voz do vento sussurra-me ao ouvido uma melodia que evoca saudade... No lado oposto, o pio de uma ave desfoca-me o pensamento. Fico atenta; perscruto angústia naquele canto. Um pouco mais à frente, um coelho saltita no pasto ressequido, para logo desaparecer, por entre as estevas da berma do caminho... Ando mais um pouco, até o sol se esconder atrás do monte.

A caminho da ribeira... sinto-me una com a mãe-Natureza e inundada de uma paz única, que se vivencia nos campos do Alentejo.

 

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No Monte da Morena... sossego e tranquilidade

Uma manhã de verão (alentejano) atípica: cinzenta e fresca. No Monte da Morena Agroturismo, reinam o sossego e a tranquilidade.

Na hora de subir ao grande alpendre, para mais um pequeno-almoço bem caseiro, a gentileza e a amabilidade da D. Custódia (a governanta de serviço) fazem-nos sentir em casa. Na mesa, o pão e queijo frescos da região, o requeijão com mel, as compotas caseiras... e os famosos "biscoitos de Brinches" - que fazem esquecer qualquer dieta.

Depois, depois é hora de deixar os dias passarem num verdadeiro "nada fazer". Entre um mergulho e outro na piscina, há tempo para ler, escrevinhar ou meditar na relva, quase sempre com o Bréu por companhia - um dos dóceis labradores da casa. 

À tardinha, quando o sol se esconde para lá dos montes, chega o silêncio da noite e com ele as melodias do campo: o pio do mocho, o coaxar da rela, o canto do grilo. Ao luar, sob o olhar das estrelas, é hora de viajar no tempo: aviva-se a memória e deixam-se entrar os sonhos. Tudo isto (e muito mais) no pequeno oásis "a um pulinho" do centro de Serpa - a cidade do Museu do Relógio, onde se podem degustar alguns dos mais típicos pratos da gastronomia alentejana.

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Na "praia do sudoeste"

A manhã acordou morna e tranquila no monte do Papa-léguas: o local eleito para descansar, ao ritmo da natureza. Após o pequeno almoço, bem caseiro, seguiu-se uma pausa para o café matinal, numa das esplanadas da Zambujeira do Mar. Alguma leitura, uma breve visita à loja Lhasa, para conhecer as novidades, e é hora de descer em direção ao mar, estender a toalha no areal e deixar o corpo relaxar na espuma dos dias.

Por hoje, algumas nuvens cobrem o céu, mas sol brilha na praia do "palheirão" - o rochedo mais "solitário", que se ergue no mar da Zambujeira.

Esvazio o pensamento e escuto o murmúrio das ondas... É desta forma que saúdo o verão, na "praia do sudoeste".

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Planície

Árvores,
Vidas erguidas na vastidão da planície,
Salpicos de verde na terra árida sedenta,
Albergues de vidas errantes.

Folhas caídas, frutos tombados
Na aridez dos dias na escuridão das noites,
Sonhos que ficam rendidos
Aos pés do montado.

Juntos vão perecendo
No solo estéril da solidão,
Soltam gemidos ouvem queixumes
Sangra de abandono seu coração.

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Domingo de inverno

É domingo. Na vila (como na cidade) os domingos de inverno são, por norma, tranquilos e dados à melancolia; dias de silêncio e recolhimento. Gosto e não gosto dos domingos. Nestes dias, procuro um recanto que me deixe beber um café comigo mesma. Hoje escolhi o Além Cante, no Largo Vasco da Gama. Ali, à entrada para a "vila velha", ao domingo, no inverno, o espaço permite-me estar, tranquilamente, a ler e a bebericar o café... Lá em baixo, o rio. Corre lento, ausente, consigo mesmo. Transporta na alma histórias de outro tempo, histórias que o tempo gravou na memória das gentes. Também aqui, de onde a vista alcança, percorro um caminho de ausência: percurso sinuoso, onde o sonho me acompanha e conduz. Nessa ausência, embarco no delírio da imaginação construindo arco-íris de afetos. Apesar da ausência, a presença da esperança vai compensando o vazio que se vive por aqui... Olho em redor, ninguém. Mais um dia cinzento de ausência, mais um domingo do meu (deste) inverno.

O inverno (também) tem coisas boas

Considerada (por muitos) uma estação “cinzenta”, o inverno pode ser, também, uma época agradável dependendo das circunstâncias de modo e lugar de cada um.

Há muitas coisas – simples, mas agradáveis – que podemos fazer no inverno, que nos proporcionam prazer: ficar em casa, numa tarde chuvosa, com lareira acesa, a ler um livro, a fazer zapping ou, simplesmente, a “blogar” no sofá até que escureça; pelo meio, beber um chá de “folhas verdes” da horta, acompanhado de torradas com compota caseira. Ao fim-de- semana - se o programa incluir saída de casa -, jantar fora e ir ao cinema é a combinação perfeita. O quentinho das salas de cinema (às vezes exagerado, diga-se) sabe bem nas noites de inverno. Só custa o regresso a casa - sobretudo se estiver muito frio ou a chover.

O inverno não significa apenas chuva e dias cinzentos. Quando o sol brilha, os dias têm uma luz especial, que fica ainda mais intensa no seio da natureza. No inverno, em dias de sol, os campos verdejantes do Alentejo adquirem outra dimensão: são mosaicos de cor verde e castanha, sob um céu azul, que se estendem no horizonte sem fim…

Coisas simples, momentos únicos. Basta saber valorizar.

 

 

É hora da “folga”

As ruas estão desertas: nem uma vivalma se avista. Só um cão, deitado à somba, no canteiro da praça, de língua de fora. Passo por ele e não dá rumor. E enquanto caminho - neste cenário típico de um dia de verão no Alentejo - procuro refúgio na sombra dos beirais.

São três horas da tarde: o sol queima a pele e o ar (quente) fica irrespirável. O corpo cede à dormência e a alma fica mais só. Uma modorra que anestesia os sentidos – é hora da “folga”.

(Atravessando) a planície

A planície e o montado enchem-se de flores para saudar a primavera: amarelo, branco, roxo. Na amálgama de espécies do coberto vegetal, as abelhas procuram o néctar vital e os répteis acordam da letargia de inverno. No céu azul, um milhafre, planando, quebra o silêncio dos campos. Ao longe, o branco caiado das casas salpica de luz o verde dos montes.
Cerro os olhos para apreciar melhor os odores da planície florida. Grata pela serenidade que o campo me proporciona, tenho a sensação que pairo no ar.
A sensação perdura enquanto percorro as ruelas da pequena vila - calma e tranquila, como o são outras vilas e cidades alentejanas. Aprecio os detalhes da arquitetura local: das igrejas, do castelo, do casario em geral. Retalhos da história de um povo, que nos transportam para outros tempos. Tempos de guerra e de paz, de desânimo e de esperança, de tristezas e de alegrias. Passado que só a arte e a cultura populares nos permitem revisitar. E nisso, o Alentejo é rico e profícuo.
Lições de cultura que a travessia dos campos alentejanos propicia. Talvez por isso, “viajar cá dentro” tornou-se viciante. Hoje, mais do que nunca, o Alentejo é o meu vício.
Porque há uma luz especial por terras alentejanas: uma luz que brilha ainda mais na planície e a torna mágica. Magia que envolve e faz sonhar. Puro prazer, em que a alma renasce e o corpo descansa. Momentos inesquecíveis, que me permitem “beber um café comigo mesma”.

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DSC05993.JPGNota: fotos tiradas na regiao de Évora (Alandroal e Redondo).