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Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

Manhã de outono

É sábado, de outono. O sol deu as boas-vindas logo pela manhã, aquecendo os recantos mais sombrios. Escuto silêncio na pacatez do momento. No laranjal, junto à casa, as ervas daninhas invadiram o solo: vivazes, numa luta constante pela sobrevivência, são elas que dominam no verde que invadiu os campos. No céu, pássaros audazes ensaiam danças de liberdade contagiante. Gosto de manhãs assim: soalheiras e amenas, propícias ao romancear do pensamento. Manhãs que convidam à descoberta do cintilar da vida, entre os gestos mais simples: inalar as notas do perfume da terra, enquanto beberico o primeiro café do dia.

(Sou) um cálice

Sou um grão de areia: um sobrevivente, das marés do oceano onde mergulhei. Resistente e calibrado pelas mãos do Homem e do tempo. Um subserviente que a vida testou. Já bebi do melhor néctar, já vivi o maior dos prazeres. Hoje, neste lado mais sombrio da minha existência, aguardo, resiliente, pelo inverno da vida. E porque já vivi no paraíso, guardo em mim as melhores recordações de quantos comigo privaram. Foram reis, foram plebeus, foram anjos e demónios. Foram todos aqueles que me tomaram nas mãos e cujos lábios beijei. Guardo em mim um pouco de todos numa mistura agridoce, que me alimenta a alma.

Nota : o texto que escrevi quando a formadora J. S., do workshop de Escrita Criativa, pediu aos formandos que escrevessem um texto: "imagine-se um objeto e conta a vida desse objeto" - um copo/taça exposto(a)

na Torre de Menagem do castelo de Mértola.

Nevoeiro de outono

Gosto do nevoeiro matinal que anuncia a chegada do sol. Na sua presença, o campo fica mais sereno e a vida acorda mais cedo. Delicadas gotas de orvalho acariciam teias de aranha e adornam os caules moribundos dos dias longos. Mas logo que o sol despertar, desvanecer-se-ão, discretas, para alimentar de vida as plantas que cobrem o chão da planície.
Há outra vivência no Alentejo quando os dias se encurtam e o nevoeiro se instala. É a vida outonal, a despontar em cada recanto.

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No "outono" da vida

Parece que as estações do ano e as fases da nossa vida, em tudo se assemelham. O "outono" (uma das cinco fases da vida, de acordo com a antiga filosofia chinesa) é a estação para abrandar, para olhar mais profundamente o que nos rodeia, e aproveitar o bom dos dias, até o "inverno" chegar.
Numa sociedade cada vez mais "hiperativa", os dias correm velozes e o Tempo há muito que se adiantou no caminho; seguimos no seu encalço, sempre a julgar que lhe tomamos a dianteira. Pura ilusão. Não há forma de inverter os ponteiros do relógio, somente dispomos do mecanismo para ajustar o ritmo. É no "outono" que o ajuste se torna possível (ou não). De acordo com princípios da filosofia chinesa, no "outono" da vida o nosso Yin Yang (duas energias opostas) está em harmonia. A luta constante entre estes dois lados acalma e a sua relação torna-se mais equilibrada. Há um domínio (quase) total desta interação energética: o Yin torna-se ensolarado (torna-se Yang) e o Yang (sombrio) vira Yin - o que permite um maior controlo sobre as nossas emoções. Assim, além das estações do ano, também a nossa vida - os nossos ritmos, as nossas vivências/experiências - ocorre ao ritmo daqueles dois princípios da sabedoria chinesa.

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Nota: segundo a filosofia chinesa Yin Yang são duas energias opostas em que Yin representa a luz fraca, a lua, o lado mais passivo e frio, a energia negativa; o Yang representa o sol, o lado ativo e quente, a energia positiva.

Simpatia vs Rebeldia

Gosto de um sorriso franco e de um olhar simpático.
No espectro da revolução cultural atual, aquele património "sociológico" encontra-se ameaçado. No entanto, ainda há quem faça uso diário desses testemunhos de identidade - verdadeiros cúmplices da simpatia, da bondade e da humildade.
O mundo seria mais humano e mais fraterno se: em vez da inveja se praticasse a compaixão, em vez da maledicência se agisse em prol da cooperação, em vez da revolta se praticasse a paz.
Vivemos num mundo onde se espalha o medo e o terror. Urge praticar a paz - a qual deve começar dentro de nós, pois só assim transmitiremos tranquilidade e confiança aos outros. 

O "homem das castanhas"

Foi sempre assim que lhe ouvi chamar, desde o tempo de infância. Era recorrente, no outono, a professora Nazaré (a minha professora da primária) pedir um texto - uma redação - alusivo ao tema. Não sei se este costume se mantém, mas o homem das castanhas continua a brindar-nos com o seu pregão: "quentes e boas". Um pregão que atravessou gerações.
Pessoalmente, gosto do cheiro da castanha assada e do ritual que lhe está associado: a destreza das mãos que enrolam o "cartucho" de papel, o fumo que se mistura com o nevoeiro dos dias e o braseiro que aquece a alma mais fria. Um quadro de cor quente, em tempo frio.

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Ervas daninhas ou plantas comestíveis?

É outono. As ervas daninhas já invadem a beira do caminho. Provocadas pelas primeiras chuvas, irrompem entre a manta morta do pinhal, intersectam culturas, despontam aqui e acolá. Há quem as julgue inúteis e/ou prejudiciais, na medida em que competem com as demais plantas domesticadas. Outros, porém, têm opinião contrária: todos os estratos vegetais podem coexistir nos ecossistemas, sem que haja, necessariamente, atropelos ou desvantagens competitivas. Além disso, muitas das ervas daninhas são plantas perenes comestíveis. Os nossos antepassados utilizavam muitas delas, quer na alimentação, quer para fins terapêuticos/medicinais. Nesta altura do ano, o campo está pejado destas espécies. Todavia, é necessário saber identificá-las, pois há variedades tóxicas e outras venenosas.

Há dias tive o prazer de assistir a uma autêntica "aula de botânica", em pleno campo, dirigida por Stephen Barstow - o especialista mundial nesta matéria. Deixo-vos um testemunho desta aula: um exemplo prático de utilização da planta conhecida por umbigo-de-vénus (vulgarmente apelidada de chapéu-dos-telhados) - uma planta comestível, que pode constituir um excelente ingrediente de saladas verdes. Diz S. Barstow que é "tenra e crocante" apesar do "sabor ligeiramente ácido". Mais uma novidade, para acrescentar ao elenco das dicas de alimentação naturalista.

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(Nome comum: Umbigo-de-vénus)

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(Nome comum: Acelga selvagem)

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(Nome comum: Salva brava) 


Nota: https://www.cm-mertola.pt/municipio/comunicacao-municipal/noticias/item/2816-stephen-barstow-e-as-plantas-perenes-comestiveis-do-vale-do-guadiana

 

 

 

 

 

 

 

Caminhando (no campo)

No campo: ouço o murmúrio do vento, escuto as melodias dos pássaros, respiro os perfumes da floresta. Todos os sentidos estão alerta quando caminho no campo; mas é no coração da floresta, que as emoções se adensam. Reconhecer em cada planta o palpitar da Vida, constatar em cada rochedo o relógio do Tempo. Caminhar no campo permite-nos ouvir e falar com a Mãe-natureza: brindar com ela à Vida. Além de constituir uma terapia (natural) para alcançar bem-estar físico e mental, é uma forma saudável de combater a maior epidemia social do século: o stress.

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O outono e eu

Hoje senti o outono. Vi-lhe o rosto: macilento e triste; tinha ar desgrenhado. Acenou-me pela manhã, bem cedo. Um pouco tímido, ainda. Trazia melancolia no olhar e uma réstia de esperança nas palavras. Acolheu-se no meu regaço. Pela primeira vez, em muito tempo, senti que se resignava e me obedecia. Sem lamúrias, chegou e ficou. Aceitei, finalmente, a sua presença. Deste modo, e longe da nostalgia, sua companheira, pode desfrutar do momento e apreciar o que a Vida tem para lhe oferecer. Sabe bem acordar e sentir que o outono é nosso amigo.

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O refúgio

Já passou um ano. Contudo, continuo a recordar, com saudade, o meu refúgio em Campolide: a minha "casinha". É desta forma que aludo àquela que foi o meu "cantinho" - na recente e breve passagem por Lisboa. Um lugar onde fui feliz. Recordo a chegada, mas nunca esquecerei o dia da partida: um carro cheio de tralha e uma alma vazia. Quando a cidade se tornava minha cúmplice, quis o destino que me afastasse. Foi difícil deixar aquela cápsula espacial. Ali, sentia-me protegida do olhar do mundo. A minha identidade era respeitada. Sem intromissões (nem julgamentos) de terceiros, a vida foi acontecendo de forma sã, ao sabor do tempo e do universo. Apesar da agitação da grande cidade, consegui criar os meus ritmos sem interferências externas. Hoje, posso dizer que consegui sentir a "leveza" do Ser. Cresci e ganhei defesas. Além de mais, pude aproveitar (e apreciar) o que Lisboa tem de bom: muita Cultura.

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