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Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

Escrita ao Luar

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Marmelos e romãs (frutos de outono)

 Ao cair da tarde, na horta – junto à casa onde nasci, os marmeleiros que circundam a cerca de madeira prendem-me a atenção. Nos ramos pendentes, os frutos amarelo-dourado clamam a colheita. Enquanto isso, o pensamento corre veloz e transporta-me para o passado (recente).

 Viajo no tempo e vivencio momentos únicos e irrepetíveis: a minha avó, sentada na varanda da casa, a descascar os “frutos dos deuses” - para mais tarde fazer as tão desejadas marmelada e geleia. E eu, entre uma brincadeira e outra, lá ia ajudando (ou complicando) na tarefa.

 Folheio mais um pouco o livro das memórias, e noutra página revejo: as tigelas de porcelana, plenas do doce apetitoso, ainda fumegante. Mais tarde (depois de arrefecer), um círculo de papel vegetal servir-lhe-ia de tampa. E assim se conservava - durante o outono e inverno - até ao momento de ser consumido - normalmente com uma boa fatia de pão caseiro a acompanhar um chá de lúcia-lima ou de cidreira (os mais consumidos lá por casa).

 Noutras alturas, assavam-se os marmelos no forno de lenha - conjuntamente com o pão - para servirem de sobremesa (à semelhança das maças e das batatas-doces).

 Mais além, noutro canto da horta, uma velha romãzeira ostenta orgulhosamente os seus “frutos exóticos”: as simbólicas romãs. Um fruto de sabor agridoce, desde sempre muito apreciado. Para além das qualidades nutricionais (é rica em antioxidantes), a romã apresenta baixo nível de calorias. Devendo, por isso, fazer parte de qualquer regime alimentar - equilibrado e saudável.

 Outros frutos, outras histórias. Lembranças da infância, que me acompanham nesta breve revisitação pelo passado: recordo-me da minha avó “desbagulhar” meticulosamente as romãs para eu comer os bagos de cor vermelho-rosado, às vezes polvilhados de açúcar. Momentos de “doçura” simples, mas carregados de sentido.

 Os marmelos e as romãs são frutos carregados de simbolismos e crenças. No caso das romãs, dizia-se lá por casa que se deveria “comer uma romã no Dia de Reis para não faltar dinheiro durante o ano”. Crenças à parte, ainda hoje, ambos os frutos fazem parte do regime alimentar dos povos do mediterrâneo (e não só).

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NOTA: os marmelos, frutos oriundos da Ásia Ocidental e conhecidos dos gregos desde o séc. VII a.C., que os ofereciam aos deuses. «Para o povo, oferecer um marmelo era uma prova de amor: um decreto de Sólon, no século VI, oficializava a função do marmelo nos ritos nupciais.» (Digest, 1983). O marmelo foi (durante muito tempo) utilizado na medicina antiga - devido às suas qualidades adstringentes - por se julgar que era um antídoto de venenos (Digest, 1983).

A romãzeira - um arbusto oriundo da Ásia Ocidental – chegou mais tarde à Ásia Oriental e aos países mediterrânicos, onde se difundiu rapidamente. Aqui, as aves foram os principais agentes da disseminação. A romã foi um fruto muito apreciado pelos Árabes, os quais a cultivaram intensivamente esta planta no sul de Espanha. «A cidade de Granada (romã em espanhol, ostenta desde o século VIII o nome do fruto.» (Digest, 1983).

A romãzeira e o seu fruto estão ligados a um grande número de tradições e costumes, para além da forte carga simbólica que sempre esteve associada aos mesmos. Foram múltiplas as utilizações dadas ao sumo da romã – e até à casca, à raiz e à flor da romãzeira - na medicina antiga (Digest, 1983).

Referência bibliográfica: Digest, S. d. (1983). Segredos e virtudes das plantas medicinais. Lisboa.

Costume ou mania?

 Já me questionei (um cem número de vezes): que motivo leva alguns povos – nomeadamente os franceses - a construir casas de banho mistas? Será para poupar espaço? Poupar dinheiro? Ou será uma questão meramente cultural? Cultural, no mínimo, será. Se assim for, é uma ideia que não agrada a muita gente. Pessoalmente não me apraz estar dentro de um “cubículo” (com um ou dois metros quadrados) e com o nariz quase a tocar o urinol dos cavalheiros. Além de desagradável é pouco higiénico.

 Depois, é sempre constrangedor partilhar o espelho - enquanto retoco a maquilhagem -com dois ou três cavalheiros que me olham (nalguns casos) como se fosse extraterrestre.

A privacidade e o recato são necessários e exigem-se nos momentos mais íntimos.

 Mas pelos vistos não sou a única a ficar “com os olhos em bico” perante tal hábito. Certa vez - em Bordéus - enquanto aguardava na fila para o WC, um indivíduo de origem asiática procurava certificar-se se estaria no sítio certo. Procurou (exaustivamente) o símbolo indicador do género masculino e nada. Somente o símbolo “toilette” - inscrito numa placa, à direita da porta de acesso àquele compartimento - lhe dava a certeza de se encontrar no lugar exato. Resignado, entrou no minúsculo compartimento. À saída, ainda pouco convencido, repetiu a busca. E nada. Por fim, afastou-se - encolhendo os ombros – com ar atónito… talvez pensasse: “Será costume? Ou será mania?”