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Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

As cores do (meu) Caminho...

Mudar (também) é preciso! 

Eis o mote que induziu à alteração das cores deste blogue. E porque gosto das cores da Terra e dos frutos do outono - castanhos, laranjas, ocres… -, a nova imagem reflete, um pouco, dessa paleta. Um mosaico de cores que, ao contrário dos dias frios, aquece a alma e (re)ativa a imaginação.

Cores que traduzem o espírito da estação: mudança, resiliência, adaptação e (muita) confiança.

Assim, pergunto: o outono é triste? Não! A tristeza (e a alegria) está em nós. Sem confiança, o presente mutila e o futuro será hipotecado. São as cores do presente que iluminam o Caminho; selecionamos as que dão mais brilho ao nosso Percurso, para que a nossa Passagem faça todo o sentido.

 

Marmelos e romãs (frutos de outono)

 Ao cair da tarde, na horta – junto à casa onde nasci, os marmeleiros que circundam a cerca de madeira prendem-me a atenção. Nos ramos pendentes, os frutos amarelo-dourado clamam a colheita. Enquanto isso, o pensamento corre veloz e transporta-me para o passado (recente).

 Viajo no tempo e vivencio momentos únicos e irrepetíveis: a minha avó, sentada na varanda da casa, a descascar os “frutos dos deuses” - para mais tarde fazer as tão desejadas marmelada e geleia. E eu, entre uma brincadeira e outra, lá ia ajudando (ou complicando) na tarefa.

 Folheio mais um pouco o livro das memórias, e noutra página revejo: as tigelas de porcelana, plenas do doce apetitoso, ainda fumegante. Mais tarde (depois de arrefecer), um círculo de papel vegetal servir-lhe-ia de tampa. E assim se conservava - durante o outono e inverno - até ao momento de ser consumido - normalmente com uma boa fatia de pão caseiro a acompanhar um chá de lúcia-lima ou de cidreira (os mais consumidos lá por casa).

 Noutras alturas, assavam-se os marmelos no forno de lenha - conjuntamente com o pão - para servirem de sobremesa (à semelhança das maças e das batatas-doces).

 Mais além, noutro canto da horta, uma velha romãzeira ostenta orgulhosamente os seus “frutos exóticos”: as simbólicas romãs. Um fruto de sabor agridoce, desde sempre muito apreciado. Para além das qualidades nutricionais (é rica em antioxidantes), a romã apresenta baixo nível de calorias. Devendo, por isso, fazer parte de qualquer regime alimentar - equilibrado e saudável.

 Outros frutos, outras histórias. Lembranças da infância, que me acompanham nesta breve revisitação pelo passado: recordo-me da minha avó “desbagulhar” meticulosamente as romãs para eu comer os bagos de cor vermelho-rosado, às vezes polvilhados de açúcar. Momentos de “doçura” simples, mas carregados de sentido.

 Os marmelos e as romãs são frutos carregados de simbolismos e crenças. No caso das romãs, dizia-se lá por casa que se deveria “comer uma romã no Dia de Reis para não faltar dinheiro durante o ano”. Crenças à parte, ainda hoje, ambos os frutos fazem parte do regime alimentar dos povos do mediterrâneo (e não só).

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NOTA: os marmelos, frutos oriundos da Ásia Ocidental e conhecidos dos gregos desde o séc. VII a.C., que os ofereciam aos deuses. «Para o povo, oferecer um marmelo era uma prova de amor: um decreto de Sólon, no século VI, oficializava a função do marmelo nos ritos nupciais.» (Digest, 1983). O marmelo foi (durante muito tempo) utilizado na medicina antiga - devido às suas qualidades adstringentes - por se julgar que era um antídoto de venenos (Digest, 1983).

A romãzeira - um arbusto oriundo da Ásia Ocidental – chegou mais tarde à Ásia Oriental e aos países mediterrânicos, onde se difundiu rapidamente. Aqui, as aves foram os principais agentes da disseminação. A romã foi um fruto muito apreciado pelos Árabes, os quais a cultivaram intensivamente esta planta no sul de Espanha. «A cidade de Granada (romã em espanhol, ostenta desde o século VIII o nome do fruto.» (Digest, 1983).

A romãzeira e o seu fruto estão ligados a um grande número de tradições e costumes, para além da forte carga simbólica que sempre esteve associada aos mesmos. Foram múltiplas as utilizações dadas ao sumo da romã – e até à casca, à raiz e à flor da romãzeira - na medicina antiga (Digest, 1983).

Referência bibliográfica: Digest, S. d. (1983). Segredos e virtudes das plantas medicinais. Lisboa.

A "hora do chá"

 Com a chegada da estação fria, o chá passa a ser uma constante na minha vida. Bebericar um chá - acompanhado de uma fatia de bolo caseiro: pão-de-ló ou bolo de maça - num ambiente bonito e acolhedor é um ritual que prezo e que aprecio bastante – sobretudo – no outono e inverno. Manias. Dirão alguns.

 Talvez por isso, os salões e casas de chá tenham (para mim) a importância que têm e “colecionar” bules seja uma paixão.

 Apesar do hábito de beber chá – como o famoso “chá das cinco” – ter sido introduzido em Inglaterra pelas mãos de uma portuguesa (Catarina de Bragança, filha de D. João IV que casou com Carlos II de Inglaterra no séc. XVII), em Portugal a cultura do chá não está fortemente enraizada como naquele país (ou outro). No entanto, com as naturais alterações dos hábitos sociais, os apreciadores de chá aumentaram e, logicamente, aumentou o número de “casas de chá” (e outros espaços afins).

 Foi em França - nomeadamente em Estrasburgo e Paris - que encontrei dos mais aconchegantes e requintados salões de chá. Locais onde apetece estar e ficar por tempo indeterminado… sem pressas e com tempo para saborear o passar das horas em silêncio (ou não). Tempo para apreciar detalhes, pensar em Tudo e em Nada.

Sugestão: aqui bem perto (no Terreiro dos Valentes, em Beja) a empresa Maltesinhas – um misto de cafetaria e salão de chá - representa a dita “cultura”, como nenhum outro espaço similar, desde há dezanove anos. Dos chás caseiros aos bolinhos conventuais, passando pelos famosos pastéis de nata, tudo ali é confecionado a “quatro mãos” (como refere o Sr. Mário, co-proprietário). Simples no que à decoração diz respeito, mas confortável o suficiente, é, todavia, um dos melhores espaços da cidade para manter o hábito.

 

 

 

 

 

(o meu) tributo ao outono

Chegou o outono e com ele as folhas caídas no chão. Folhas mortas – de mil tons!

Folhas caídas que o vento leva...

Existências breves - de regresso às origens - transportando sonhos (desfeitos)! Vidas que acabam com o tempo… tempo de dias curtos e cinzentos - às vezes nostálgicos.

Não gosto do outono. O défice de luz e de brilho nos dias transtorna e agita as almas mais irrequietas. Apetece avançar no calendário: ir mais além e permanecer na primavera dos sentidos… Enquanto isso, vou saboreando momentos que a Vida me oferece: momentos únicos salpicados de Amor e Sonhos.