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Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

Escrita ao Luar

Um blog de “escrita” sensitiva e intimista sobre (quase) tudo... e com destaque para: viagens, ambientes inspiradores e gastronomia.

Manhã de outono

É sábado, de outono. O sol deu as boas-vindas logo pela manhã, aquecendo os recantos mais sombrios. Escuto silêncio na pacatez do momento. No laranjal, junto à casa, as ervas daninhas invadiram o solo: vivazes, numa luta constante pela sobrevivência, são elas que dominam no verde que invadiu os campos. No céu, pássaros audazes ensaiam danças de liberdade contagiante. Gosto de manhãs assim: soalheiras e amenas, propícias ao romancear do pensamento. Manhãs que convidam à descoberta do cintilar da vida, entre os gestos mais simples: inalar as notas do perfume da terra, enquanto beberico o primeiro café do dia.

Nevoeiro de outono

Gosto do nevoeiro matinal que anuncia a chegada do sol. Na sua presença, o campo fica mais sereno e a vida acorda mais cedo. Delicadas gotas de orvalho acariciam teias de aranha e adornam os caules moribundos dos dias longos. Mas logo que o sol despertar, desvanecer-se-ão, discretas, para alimentar de vida as plantas que cobrem o chão da planície.
Há outra vivência no Alentejo quando os dias se encurtam e o nevoeiro se instala. É a vida outonal, a despontar em cada recanto.

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No "outono" da vida

Parece que as estações do ano e as fases da nossa vida, em tudo se assemelham. O "outono" (uma das cinco fases da vida, de acordo com a antiga filosofia chinesa) é a estação para abrandar, para olhar mais profundamente o que nos rodeia, e aproveitar o bom dos dias, até o "inverno" chegar.
Numa sociedade cada vez mais "hiperativa", os dias correm velozes e o Tempo há muito que se adiantou no caminho; seguimos no seu encalço, sempre a julgar que lhe tomamos a dianteira. Pura ilusão. Não há forma de inverter os ponteiros do relógio, somente dispomos do mecanismo para ajustar o ritmo. É no "outono" que o ajuste se torna possível (ou não). De acordo com princípios da filosofia chinesa, no "outono" da vida o nosso Yin Yang (duas energias opostas) está em harmonia. A luta constante entre estes dois lados acalma e a sua relação torna-se mais equilibrada. Há um domínio (quase) total desta interação energética: o Yin torna-se ensolarado (torna-se Yang) e o Yang (sombrio) vira Yin - o que permite um maior controlo sobre as nossas emoções. Assim, além das estações do ano, também a nossa vida - os nossos ritmos, as nossas vivências/experiências - ocorre ao ritmo daqueles dois princípios da sabedoria chinesa.

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Nota: segundo a filosofia chinesa Yin Yang são duas energias opostas em que Yin representa a luz fraca, a lua, o lado mais passivo e frio, a energia negativa; o Yang representa o sol, o lado ativo e quente, a energia positiva.

O "homem das castanhas"

Foi sempre assim que lhe ouvi chamar, desde o tempo de infância. Era recorrente, no outono, a professora Nazaré (a minha professora da primária) pedir um texto - uma redação - alusivo ao tema. Não sei se este costume se mantém, mas o homem das castanhas continua a brindar-nos com o seu pregão: "quentes e boas". Um pregão que atravessou gerações.
Pessoalmente, gosto do cheiro da castanha assada e do ritual que lhe está associado: a destreza das mãos que enrolam o "cartucho" de papel, o fumo que se mistura com o nevoeiro dos dias e o braseiro que aquece a alma mais fria. Um quadro de cor quente, em tempo frio.

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Ervas daninhas ou plantas comestíveis?

É outono. As ervas daninhas já invadem a beira do caminho. Provocadas pelas primeiras chuvas, irrompem entre a manta morta do pinhal, intersectam culturas, despontam aqui e acolá. Há quem as julgue inúteis e/ou prejudiciais, na medida em que competem com as demais plantas domesticadas. Outros, porém, têm opinião contrária: todos os estratos vegetais podem coexistir nos ecossistemas, sem que haja, necessariamente, atropelos ou desvantagens competitivas. Além disso, muitas das ervas daninhas são plantas perenes comestíveis. Os nossos antepassados utilizavam muitas delas, quer na alimentação, quer para fins terapêuticos/medicinais. Nesta altura do ano, o campo está pejado destas espécies. Todavia, é necessário saber identificá-las, pois há variedades tóxicas e outras venenosas.

Há dias tive o prazer de assistir a uma autêntica "aula de botânica", em pleno campo, dirigida por Stephen Barstow - o especialista mundial nesta matéria. Deixo-vos um testemunho desta aula: um exemplo prático de utilização da planta conhecida por umbigo-de-vénus (vulgarmente apelidada de chapéu-dos-telhados) - uma planta comestível, que pode constituir um excelente ingrediente de saladas verdes. Diz S. Barstow que é "tenra e crocante" apesar do "sabor ligeiramente ácido". Mais uma novidade, para acrescentar ao elenco das dicas de alimentação naturalista.

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(Nome comum: Umbigo-de-vénus)

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(Nome comum: Acelga selvagem)

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(Nome comum: Salva brava) 


Nota: https://www.cm-mertola.pt/municipio/comunicacao-municipal/noticias/item/2816-stephen-barstow-e-as-plantas-perenes-comestiveis-do-vale-do-guadiana

 

 

 

 

 

 

 

O outono e eu

Hoje senti o outono. Vi-lhe o rosto: macilento e triste; tinha ar desgrenhado. Acenou-me pela manhã, bem cedo. Um pouco tímido, ainda. Trazia melancolia no olhar e uma réstia de esperança nas palavras. Acolheu-se no meu regaço. Pela primeira vez, em muito tempo, senti que se resignava e me obedecia. Sem lamúrias, chegou e ficou. Aceitei, finalmente, a sua presença. Deste modo, e longe da nostalgia, sua companheira, pode desfrutar do momento e apreciar o que a Vida tem para lhe oferecer. Sabe bem acordar e sentir que o outono é nosso amigo.

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As cores do (meu) Caminho...

Mudar (também) é preciso! 

Eis o mote que induziu à alteração das cores deste blogue. E porque gosto das cores da Terra e dos frutos do outono - castanhos, laranjas, ocres… -, a nova imagem reflete, um pouco, dessa paleta. Um mosaico de cores que, ao contrário dos dias frios, aquece a alma e (re)ativa a imaginação.

Cores que traduzem o espírito da estação: mudança, resiliência, adaptação e (muita) confiança.

Assim, pergunto: o outono é triste? Não! A tristeza (e a alegria) está em nós. Sem confiança, o presente mutila e o futuro será hipotecado. São as cores do presente que iluminam o Caminho; selecionamos as que dão mais brilho ao nosso Percurso, para que a nossa Passagem faça todo o sentido.

 

Marmelos e romãs (frutos de outono)

 Ao cair da tarde, na horta – junto à casa onde nasci, os marmeleiros que circundam a cerca de madeira prendem-me a atenção. Nos ramos pendentes, os frutos amarelo-dourado clamam a colheita. Enquanto isso, o pensamento corre veloz e transporta-me para o passado (recente).

 Viajo no tempo e vivencio momentos únicos e irrepetíveis: a minha avó, sentada na varanda da casa, a descascar os “frutos dos deuses” - para mais tarde fazer as tão desejadas marmelada e geleia. E eu, entre uma brincadeira e outra, lá ia ajudando (ou complicando) na tarefa.

 Folheio mais um pouco o livro das memórias, e noutra página revejo: as tigelas de porcelana, plenas do doce apetitoso, ainda fumegante. Mais tarde (depois de arrefecer), um círculo de papel vegetal servir-lhe-ia de tampa. E assim se conservava - durante o outono e inverno - até ao momento de ser consumido - normalmente com uma boa fatia de pão caseiro a acompanhar um chá de lúcia-lima ou de cidreira (os mais consumidos lá por casa).

 Noutras alturas, assavam-se os marmelos no forno de lenha - conjuntamente com o pão - para servirem de sobremesa (à semelhança das maças e das batatas-doces).

 Mais além, noutro canto da horta, uma velha romãzeira ostenta orgulhosamente os seus “frutos exóticos”: as simbólicas romãs. Um fruto de sabor agridoce, desde sempre muito apreciado. Para além das qualidades nutricionais (é rica em antioxidantes), a romã apresenta baixo nível de calorias. Devendo, por isso, fazer parte de qualquer regime alimentar - equilibrado e saudável.

 Outros frutos, outras histórias. Lembranças da infância, que me acompanham nesta breve revisitação pelo passado: recordo-me da minha avó “desbagulhar” meticulosamente as romãs para eu comer os bagos de cor vermelho-rosado, às vezes polvilhados de açúcar. Momentos de “doçura” simples, mas carregados de sentido.

 Os marmelos e as romãs são frutos carregados de simbolismos e crenças. No caso das romãs, dizia-se lá por casa que se deveria “comer uma romã no Dia de Reis para não faltar dinheiro durante o ano”. Crenças à parte, ainda hoje, ambos os frutos fazem parte do regime alimentar dos povos do mediterrâneo (e não só).

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NOTA: os marmelos, frutos oriundos da Ásia Ocidental e conhecidos dos gregos desde o séc. VII a.C., que os ofereciam aos deuses. «Para o povo, oferecer um marmelo era uma prova de amor: um decreto de Sólon, no século VI, oficializava a função do marmelo nos ritos nupciais.» (Digest, 1983). O marmelo foi (durante muito tempo) utilizado na medicina antiga - devido às suas qualidades adstringentes - por se julgar que era um antídoto de venenos (Digest, 1983).

A romãzeira - um arbusto oriundo da Ásia Ocidental – chegou mais tarde à Ásia Oriental e aos países mediterrânicos, onde se difundiu rapidamente. Aqui, as aves foram os principais agentes da disseminação. A romã foi um fruto muito apreciado pelos Árabes, os quais a cultivaram intensivamente esta planta no sul de Espanha. «A cidade de Granada (romã em espanhol, ostenta desde o século VIII o nome do fruto.» (Digest, 1983).

A romãzeira e o seu fruto estão ligados a um grande número de tradições e costumes, para além da forte carga simbólica que sempre esteve associada aos mesmos. Foram múltiplas as utilizações dadas ao sumo da romã – e até à casca, à raiz e à flor da romãzeira - na medicina antiga (Digest, 1983).

Referência bibliográfica: Digest, S. d. (1983). Segredos e virtudes das plantas medicinais. Lisboa.

A "hora do chá"

 Com a chegada da estação fria, o chá passa a ser uma constante na minha vida. Bebericar um chá - acompanhado de uma fatia de bolo caseiro: pão-de-ló ou bolo de maça - num ambiente bonito e acolhedor é um ritual que prezo e que aprecio bastante – sobretudo – no outono e inverno. Manias. Dirão alguns.

 Talvez por isso, os salões e casas de chá tenham (para mim) a importância que têm e “colecionar” bules seja uma paixão.

 Apesar do hábito de beber chá – como o famoso “chá das cinco” – ter sido introduzido em Inglaterra pelas mãos de uma portuguesa (Catarina de Bragança, filha de D. João IV que casou com Carlos II de Inglaterra no séc. XVII), em Portugal a cultura do chá não está fortemente enraizada como naquele país (ou outro). No entanto, com as naturais alterações dos hábitos sociais, os apreciadores de chá aumentaram e, logicamente, aumentou o número de “casas de chá” (e outros espaços afins).

 Foi em França - nomeadamente em Estrasburgo e Paris - que encontrei dos mais aconchegantes e requintados salões de chá. Locais onde apetece estar e ficar por tempo indeterminado… sem pressas e com tempo para saborear o passar das horas em silêncio (ou não). Tempo para apreciar detalhes, pensar em Tudo e em Nada.

Sugestão: aqui bem perto (no Terreiro dos Valentes, em Beja) a empresa Maltesinhas – um misto de cafetaria e salão de chá - representa a dita “cultura”, como nenhum outro espaço similar, desde há dezanove anos. Dos chás caseiros aos bolinhos conventuais, passando pelos famosos pastéis de nata, tudo ali é confecionado a “quatro mãos” (como refere o Sr. Mário, co-proprietário). Simples no que à decoração diz respeito, mas confortável o suficiente, é, todavia, um dos melhores espaços da cidade para manter o hábito.

 

 

 

 

 

(o meu) tributo ao outono

Chegou o outono e com ele as folhas caídas no chão. Folhas mortas – de mil tons!

Folhas caídas que o vento leva...

Existências breves - de regresso às origens - transportando sonhos (desfeitos)! Vidas que acabam com o tempo… tempo de dias curtos e cinzentos - às vezes nostálgicos.

Não gosto do outono. O défice de luz e de brilho nos dias transtorna e agita as almas mais irrequietas. Apetece avançar no calendário: ir mais além e permanecer na primavera dos sentidos… Enquanto isso, vou saboreando momentos que a Vida me oferece: momentos únicos salpicados de Amor e Sonhos.